O cursor pisca ritmicamente sobre a folha em branco, um metrónomo visual que marca o compasso da minha própria irrelevância. No ecrã, o logótipo da pequena empresa de comunicação com que colaboro ocasionalmente parece olhar para mim com a mesma condescendência com que olho para as minhas contas bancárias.
Estar desempregado, para quem foi treinado para estar no centro do turbilhão, é uma forma lenta de asfixia. A rotina tornou-se uma sucessão de gestos inúteis, um simulacro de produtividade que mal disfarça a falta de motivação que se entranhou nos ossos.
É quando a noite cai e o mundo lá fora se cala que o meu verdadeiro expediente começa. Ligo o som e deixo que as notas cíclicas de Ludovico Einaudi inundem o quarto. O piano dele não traz paz; traz a estrutura necessária para o caos que se segue.
A primeira fase é o stress do nada. É a ansiedade paradoxal de quem não tem prazos, mas sente o tempo a escorrer-lhe entre os dedos. Penso nas tarefas menores dessa colaboração precária, nos e-mails que enviei e que ninguém respondeu, na humilhação subtil de ser um “colaborador” quando a alma grita por ser protagonista. É um ruído seco, uma estática mental que me lembra, a cada segundo, da minha atual insignificância profissional.
Mas a lente de jornalista, essa que não se desliga , rapidamente faz um zoom para fora. Entro na segunda fase: o mundo.
Para alguém com a minha formação, a geopolítica é tão pessoal como a minha própria saúde. No escuro do quarto, as crises internacionais, a erosão da democracia e o medo do amanhã global fundem-se com a minha incerteza financeira. A pergunta “o que vai ser de nós?” deixa de ser uma análise editorial e passa a ser um grito interno. É a perceção de que o mundo está a desmoronar-se ao mesmo ritmo que a minha vida .
É então que a química toma o controlo. A terceira fase chega com um soco de adrenalina e medo. O coração acelera sem que eu tenha saído da cadeira. Surge uma frustração corrosiva, uma percepção violenta de que eu deveria ser muito mais do que isto. Sinto-me um motor de Ferrari preso no corpo de um carro de sucata.
É um estado caótico: passo da tristeza mais profunda para uma euforia quase maníaca. A barreira entre a racionalidade e o delírio torna-se uma linha de giz debaixo de chuva.
E é aqui, neste precipício, que a escrita acontece.
Transformo-me. O desempregado apático dá lugar a um génio criativo e perigoso. Sem a rédea de um editor ou o travão da linha editorial, a minha imaginação explode. Escrevo com fúria. Escrevo como se cada palavra fosse um prego num caixão que me recuso a habitar. É uma escrita intensa, visceral, sem filtros, onde a minha criatividade atinge picos que a luz do dia jamais permitiria. Escrevo até que os dedos doam e a mente chegue ao limite absoluto da exaustão.
O problema é que, depois do furor, o cérebro não desliga. Tento ler para acalmar a fera, leio tudo o que encontro, mas o motor continua a girar em vazio. É um sentimento insuportável: o corpo está morto, mas a mente continua a processar o lixo do mundo. Então escrevo mais. Escrevo até ao colapso físico, até a exaustão vencer a ansiedade por falta de combatentes.


O despertar é a última bofetada. Durmo horas a fio, um sono pesado que não restaura, apenas apaga. Acordo com uma dor de cabeça agoniante, o peso de quem viajou demasiado longe dentro de si mesmo. Olho para o lado e vejo o ecrã. Mais um dia de colaborações menores e de procura de sentido.
Sim, sentido! A procura por significado existencial que nos faz questionar, porque estamos vivos? O que estamos aqui a fazer? Qual é o objetivo?Por mais que leia, por mais que escreva não encontro a resposta que tanto procuro, como se tivesse uma biblioteca cheia de livros sem nada lá escrito.
Mas depois vem a calma no final do dia após 24 horas pós crise de ansiedade, e surge então a racionalidade acompanhada de uma esperança surdina, que nos diz “calma, as coisas irão melhorar”.
Tudo isto são consequências de uma Mente que já aguentou um montante enorme de sofrimento e dor, e que tenta arranjar mecanismos para se reestruturar, de uma forma dolorosa e marginal.
O irónico, é que é derivado a essa dor que me torno num génio criativo, é na raiva que surge o talento, a criatividade, e a capacidade de criar, de transformar uma ideia numa realidade, e não há nada mais bonito que o poder de criar.
A minha paixão não está no jornalismo mas sim na arte, e é precisamente aí que reside o dilema, entre a criatividade imensa e o dever da factualidade.
Crónica escrita durante um pico de ansiedade extrema
José Martins







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