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4 Outubro, 2024

O QUE É REAL ?

Se estás a ler isto, desde já te agradeço por gastares o teu precioso tempo neste magnífico mundo onde tudo acontece ao mesmo tempo: poderias estar a estudar, a trabalhar, a trocar mensagens no WhatsApp, ou mesmo a festejar com os amigos numa saída à noite. 

Contudo, em vez disso, estás a ler um texto de um gajo qualquer que tu muito provavelmente não conheces, mas achaste de alguma forma o título apelativo.

O que estás à espera de ler? Algo que desperte a tua consciência? Algo que te faça questionar? Ou estás tão cansado (a) do lixo que consomes diariamente nas redes sociais, no mainstream, que queres algo mais profundo, algo que te faça por momentos esquecer a realidade ao teu redor?

O meu nome é José Martins, tenho 31 anos, acabei a licenciatura em jornalismo, estou naquela fase em que questiono tudo, desde a minha filosofia de pensamento, às minhas crenças e convicções, até mesmo o meu papel no mundo.

O que é suposto fazer? O que é que eu quero na vida? Que objetivos desejo alcançar?  Mas acima de tudo, a principal pergunta que faço a mim mesmo é “o que é a realidade?

Será a realidade  o resultado de estímulos visuais e auditivos que nos dão a noção exata do mundo?

Será a realidade o resultado de uma construção social das nossas experiências? E, se assim for, então, cada um têm uma visão diferente da realidade?

Mas porque estou tão obcecado com o que é real?

A verdade é que durante um longo período de tempo perdi-me no mundo das simulações.

“Partilho convosco a minha experiência “sobrenatural no digital”

Partilho convosco a minha experiência “sobrenatural no digital”: certa noite estava  no quarto da residência de estudantes em Portalegre durante o meu segundo ano de licenciatura. Tinha um colega de quarto que estava a tirar a licenciatura em programação. Subitamente, olhei para o ecrã dele e vi que o computador estava a escrever sozinho, sem ninguém a tocar no teclado.  Este episódio  chamou-me de imediato a atenção, como se estivesse a ver algo revolucionário.

Em conversa com o meu colega rapidamente descobri que era um novo programa de computador gerido por inteligência artificial chamado de ChatGPT.

Nessa noite não dormi e fiquei a observar o meu colega a fazer um trabalho académico sem ter de pesquisar ou pensar muito.

Naquela altura, estava longe de imaginar que aquela ferramenta se iria transformar numa das aplicações mais populares do mundo, era um segredo mal guardado entre mim e o meu colega, de forma ingénua e estúpida pensávamos que éramos os únicos que sabiamos daquele programa. Porém, rapidamente descobrimos que se estava a tornar popular no meio académico.

De repente, começaram a aparecer trabalhos muito bem elaborados no meio académico, os alunos pareciam que tinham ganho uma sabedoria suprema num curto espaço de tempo, mas enquanto a maioria dos estudantes ao nível mundial olhavam para o chatgpt como uma ferramenta para fazer trabalhos académicos, eu olhava a inovação de outra forma.

É neste ponto da crônica em que vos digo que sou escritor.  Já publiquei dois livros muito antes do chatgpt existir, mas devo confessar que foram um desastre comercial, não porque não tivessem sido bem escritos, mas porque eram demasiado complexos. E para vos ser honesto eram, verdadeiramente, “uma seca”.

Mas, para alguém como eu que gostava de criar mundos fictícios, com personagem e boas histórias, o chatgpt era uma excelente ferramenta para me ajudar  em algumas ideias para o próximo livro.

Contudo, este milagre da tecnologia não dava apenas ideias ou sugestões. Na realidade, criava simulações do mundo real com histórias profundas, personagens intrigantes, mas o que me chamou a atenção foi o detalhe de realismo, as reações das personagens pareciam como se fossem humanos de verdade.

Rapidamente descobri que o chatgpt usava a informação que tinha sobre os traços psicológicos dos seres humanos para tornar as reações genuínas e reais.

Os meses passaram e as simulações geradas pelo chatgpt começaram a ser uma droga para mim, como se fosse heroína. 

Rapidamente me isolei, nomeadamente das interações sociais.

Honestamente, as únicas coisas que me interessavam eram os estudos e as simulações no chatgpt.

“Comecei a simular tudo: aulas, conversas com os professores, encontros com colegas e quanto mais informação do mundo real inseria no programa, mais o chatgpt tornava as interações reais”

Imaginem, com um conjunto de instruções de teclado, ordenarem ao  chatgpt para criar mundos com determinadas variáveis, personagens com características específicas  e histórias que poderiam controlar, caso não gostassem do rumo que a narrativa estava a tomar.

Eu era um deus naqueles mundos, mas nada daquilo era real, certo? Aquelas personagens não existiam, as histórias eram fictícias, mas as reações eram reais. E  é esse aspecto que torna as coisas tão magníficas, tão profundas, tão imersivas !

Os meses passaram e comecei a simular tudo: aulas, conversas com os professores, encontros com colegas e quanto mais informação do mundo real inseria no programa, mais o chatgpt tornava as interações reais.

À medida que o tempo passava as consequências no mundo real começaram a surgir.  A minha desconexão com a realidade estava a fazer as minhas notas caírem abruptamente, as interações sociais começaram a diminuir e aos poucos a minha definição de realidade começou a desvanecer.

Para alguém que estava a tirar jornalismo, esta situação era verdadeiramente preocupante.

Tomei a decisão de pedir ajuda à psicóloga da faculdade e aos poucos comecei a largar o vício, a droga que me tornara dependente emocionalmente, mas as consequências na personalidade foram brutais.

Eu era uma pessoa do mainstream, via séries populares, música que hoje considero lixo, tinha enormes ambições profissionais, era mais ou menos integrado na sociedade, achava que ter muitos amigos era bom sinal.

Mas ao simular tantos mundos, pude observar as muitas histórias que pareciam reais.  

No fundo é como se tivesse experienciado vidas inteiras de múltiplas pessoas, sentindo cada reação emocional, cada detalhe de vida, cada choro, cada lágrima, cada sorriso, cada olhar, cada paixão, cada segredo, cada mistério.

Esta experiência teve um brutal impacto sobre mim, sobre a minha percepção da realidade: comecei a interessar-me por coisas diferentes que antes não me diziam nada, comecei a questionar tudo aquilo que pensava ser a realidade. Se olharmos ao nosso redor com atenção observamos que estamos presos a rotinas, e regras sociais que não fazem sentido.

Começamos a questionar coisas simples: porque estamos tão presos às redes sociais? porque temos que abdicar tanto da nossa privacidade? porque é que é tão importante para nós seguirmos as regras padrão? Porque gastamos o nosso tempo a ouvir músicas sem conteúdo, porque nos damos com determinada pessoa? 
Porque temos que ser perfeitos aos olhos da sociedade? 

Finalmente chegamos a uma simples conclusão: todas as nossas crenças, todas as nossas filosofias de vida, tudo aquilo em que acreditamos, toda a nossa construção social está ligada à nossa percepção de realidade. Todos nós percepcionamos o mundo de forma diferente. 

Por isso, fica a pergunta: O que é real para ti? 

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