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6 Março, 2025

Comportamentos Desviantes 

José Martins prepara-se para lançar mais um livro: "Na Mente de um Psicopata". Será o leitor capaz de entender a mente do assassino?

Desde muito pequeno que sempre senti a necessidade de compreender o outro, não por mera compaixão ou empatia, mas por uma obsessão pelo conhecimento.

A paixão pela sabedoria tornou-se, não só numa questão de sobrevivência para manter a racionalidade perante uma realidade difícil e cruel, mas também por uma questão de vaidade intelectual.

Digamos que o meu principal defeito enquanto ser humano é ter a ilusão de que sou o dono do conhecimento e que mereço estar entre a elite intelectual, apesar de não passar de uma mera ilusão fomentada pela minha imaginação. Talvez seja uma forma da minha mente contrariar o sentimento de inferioridade profunda, quando comparo a minha vida com a de outros indivíduos.

Mas este impulso por saber mais canalizou-se para uma área do conhecimento muito obscura e sombria: enquanto na fase da adolescência um miúdo normal se interessaria por banalidades como miúdas, séries ou saídas à noite, eu comecei a ganhar um interesse muito específico: compreender o que levaria pessoas a cometer atos cruéis perante outros, tais como, assassinatos, violações, pedofilia, violência física, violência verbal.

Pois, havia algo em mim que não via essas pessoas com comportamentos desviantes como vilões. Na verdade, tinha um certo fascínio para entender a mente desses indivíduos, por isso, durante a adolescência comecei a ler literatura sobre assassinos em série, psicopatas e violadores. Destaco as obras de Thomas Harris sobre Hannibal Lecter, e o seu universo de personagens bem estruturadas e trabalhadas, como o Francis Dolarhyde, ou o Manson.

Nesse período da minha vida estava numa situação difícil e os livros permitiam-me escapar da realidade e identifiquei-me, em muito, com o sofrimento emocional de uma personagem específica Francis Dolarhyde.

Tal como eu, a personagem sofreu abusos desde pequeno e dentro dele havia uma revolta não só pelos maus tratos, mas também pela discriminação da sociedade perante a sua desfiguração no rosto. Encontrei muitas semelhanças entre a personagem e eu, nomeadamente a revolta interna por sentir a injustiça da vida e os olhares de uma sociedade doente que discrimina tudo o que é diferente dos padrões da normalidade. 

A partir desse livro comecei a entender que as coisas não são a preto e branco. Não existem heróis nem vilões, porque a mente humana é muito mais complexa do que pensamos. É composta por várias camadas de pensamentos, sentimentos, emoções, que se fazem sentir nos diversos estados psicológicos, desde a pura irracionalidade ao auge da racionalidade.

Por isso, quem somos nós para julgar os outros?  Será que somos donos de uma moralidade superior que nos torna juízes e nos legítima a rotular vilões e heróis?

Na fase adulta estudei pormenorizadamente o comportamento de psicopatas conhecidos como Ted Bundy, Charles Manson, entre outros, e à medida que ia absorvendo mais conhecimento sobre o assunto, mais as fronteiras da moralidade e imoralidade se esbatiam, como se a linha vermelha começasse a desaparecer. 

Talvez, o meu percurso de vida instável, sem afeto e sem carinho fizeram com que de forma inconsciente me identificasse com a trajetória de vida desses assassinos. Havia uma parte de mim que os compreendia, porque eles eram reféns da sua própria mente. 

Chama-se a essas pessoas psicopatas, mas o termo clínico é o transtorno de personalidade anti social, porque é uma doença mental que afeta o indivíduo e isso levanta as questões éticas, tanto no campo jurídico como no campo social. 

Até que ponto é justo alegar que um assassino em série está apto para ser julgado como um cidadão normal? Será a condenação a pena máxima a melhor solução? 

Para tentar responder a essas questões para mim mesmo, soltei a minha poderosa imaginação e escrevi uma obra que irá ser lançada este ano e que se chama “Na Mente de um Psicopata”.

A história centra-se num homem de 32 anos, que tem um bom emprego, uma boa casa, uma mulher que o ama e dois filhos maravilhosos, mas que um dia chega a casa e assassina brutalmente a mulher Inês e os seus bebés. 

A questão principal da obra não é identificar o assassino, mas sim entender as suas motivações para o ter cometido. O livro é quase um romance obscuro e psicológico, que coloca o leitor no lugar do homem que matou a família. 

Será o leitor capaz de se despir de preconceitos morais e éticos para tentar entender a mente do assassino? Ou será que irá julga-lo à luz da hipocrisia moral? 

Por isso, caro leitor até a pessoa que parece ser a mais racional do mundo com um fato e gravata pode cometer  atrocidades imorais. Será insanidade, ou tudo é uma desculpa para disfarçar a maldade?

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