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27 Abril, 2026

Não me peçam para gritar pela liberdade

Comemorar o 25 de Abril num país empobrecido.

25 de Abril de 2026, faz cinquenta e dois anos que os cravos floresceram nos canos das espingardas. E quando se fala, se pensa ou se escreve sobre essa madrugada, vem-nos à memória uma palavra: liberdade. Essa liberdade que nos permite falar, escrever e pensar sem medo, sem censura, sem PIDE à porta. Só por isso valeria a pena vivermos num Estado democrático, numa União Europeia que nos abre portas para estudar, trabalhar e construir uma vida digna. Comparados com a Rússia, com a Coreia do Norte ou com tantos países do continente africano, somos privilegiados por termos nascido num país livre.

Mas viver em democracia não significa que esteja tudo bem. Não significa que devamos fechar os olhos, fingir que tudo é um mar de rosas, e que basta colocar o cravo ao peito e gritar “viva a liberdade” nas ruas de Lisboa ou do Porto.

Não pode estar tudo bem num país onde 1,7 milhões de pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza, o que significa, em linguagem real, sobreviver com menos de 723 euros por mês. Onde quase dois milhões de portugueses, 18,6% da população, estão em situação de pobreza ou exclusão social, segundo os dados mais recentes do INE. Onde Portugal continua a ser o quinto país mais desigual da União Europeia, com um coeficiente de Gini 2,5 pontos acima da média comunitária. Não pode estar tudo bem num país onde o interior se esvazia ano após ano, dois terços dos concelhos perderam população desde 2009 e onde aldeias inteiras envelhecem sem médico, sem escola, sem futuro, à espera que alguém se lembre de que ainda existem.

Não pode estar tudo bem num país onde metade dos pensionistas recebe menos de 462 euros por mês. Onde a pensão média das mulheres é cerca de 40% inferior à dos homens, depois de uma vida inteira a sustentar famílias, a criar filhos, a cuidar de pais. Não pode estar tudo bem onde mais de 35% das famílias monoparentais vivem em pobreza, onde a incidência da pobreza ultrapassa os 38% entre crianças filhas de pais estrangeiros, e onde 29% das pessoas não conseguem pagar uma despesa inesperada, um cano que rebenta, um dente que parte, uma fatura da luz que chega mais alta do que o ordenado deixa antever.

Não pode estar tudo bem num país onde pessoas com deficiência são empurradas para a margem do mercado de trabalho com base no preconceito; onde a meritocracia é desvalorizada e a estupidez é aplaudida; onde a inteligência se tornou suspeita e o esforço foi rebaixado a tolice. Quando um idiota travestido de influencer, sem qualquer diploma académico, fatura num mês mais do que um contabilista de uma média empresa privada, ou do que um operário que cumpre oito horas diárias numa fábrica do Vale do Ave, qualquer coisa está profundamente errada e essa coisa não é uma anedota das redes sociais, é o sintoma de um país que perdeu a bússola dos valores.

A verdade, dura e nua, é esta:

Não há democracia na pobreza.

Não há dignidade na carência.

Não há liberdade quando alguém passa as noites em claro a fazer contas para chegar ao fim do mês.

Não há liberdade quando uma mãe escolhe entre comprar comida ou pagar medicamentos.

Não há liberdade quando um pai abdica de pagar os estudos ao filho porque a renda voltou a subir.

Não há liberdade num supermercado onde se devolve um pacote de carne à prateleira porque, ao chegar à caixa, já não cabe no orçamento.

E é aqui, exatamente aqui, que reside o problema estrutural. Não podemos culpar quem vive mal por não acreditar na democracia. Não podemos exigir, a quem mal sobrevive, que bata palmas ao 25 de Abril. Não podemos condenar a revolta de quem passa um ano inteiro a contar moedas para encher o depósito do carro que o leva ao emprego mal pago. Sem as transferências sociais, lembra o INE, a taxa de pobreza em Portugal ultrapassaria os 40%, quase metade do país. É essa a almofada frágil que separa milhões de portugueses da queda livre. E quando a almofada é tão fina, a democracia treme.

Vivemos num país desigual, refém de um capitalismo selvagem que não perdoa ninguém, nem o jovem que emigra porque cá não há futuro, nem o idoso que descontou cinquenta anos para receber uma reforma de fome, nem a classe média que aperta o cinto até que o cinto deixa de existir. A desigualdade e a pobreza são instrumentos de tortura emocional e psicológica. Prisões sem grades, mas prisões. Cárceres feitos de faturas, prazos, indeferimentos, listas de espera, salários que nunca chegam, sonhos adiados até deixarem de ser sonhos.

É este desfasamento entre as pessoas e as elites, académicas, sociais, jornalísticas, políticas, que faz nascer duas visões opostas do mesmo país. De um lado, o país da liberdade, dos cravos, dos discursos solenes na Assembleia, das efemérides bem televisionadas, onde se pode falar, escrever e pensar sem medo. Do outro lado, um país que passa o mês a fazer contas para sobreviver e que olha para o noticiário das comemorações como quem olha para uma festa estranha, à qual nunca foi convidado.

Por isso, não me peçam para colocar um cravo ao peito e gritar pela liberdade enquanto, ali ao lado, alguém chora baixinho com um envelope da EDP nas mãos.

Liberdade é poder viver — e não apenas sobreviver.

Liberdade é prazer e realização, pessoal e profissional.

Liberdade é poder escolher.

E enquanto houver milhões de portugueses sem essa escolha, o 25 de Abril continua por terminar.

Por José Martins – Jornalista

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