Júlio IsidroOpinião
13 Agosto, 2016

…Mas de pé como as árvores

Desta vez chorei eu, tal como as minhas avós há 50 anos. São actores com a dimensão de Manuela Maria e de Ruy de Carvalho que me fazem acreditar que as boas árvores só podem morrer de pé.

1966. Silêncio absoluto lá em casa. Havia teatro na televisão. As avós, os pais, as manas, a vizinha de cima e eu, íamos ver representar a senhora dona Palmira Bastos.
A peça, da autoria de um espanhol Alejandro Casona, um dos muitos criadores proscritos pelo regime franquista, tinha feito uma temporada no palco e agora, em gravação televisiva do teatro Avenida, ia ser vista pelo grande público da RTP.
Na semi-obscuridade de um único candeeiro aceso, vi as minhas avós a chorar, e até pressenti um fungar pouco usual no meu pai.
Nos dias seguintes não se falava de outra coisa. A actriz Palmira Bastos,nos seus noventa anos tinha feito um “papelão”. Que energia, que memória, que força a puxar por um elenco onde pontificavam, Lurdes Norberto, Josefina Silva, Varela Silva, Luís Filipe entre outros.
2016. Passaram 50 anos. O Teatro Politeama está cheio para a estreia de uma nova versão de “As árvores morrem de pé”. No foyer encontro a Lurdes Norberto curiosa em se rever no papel que um dia fez. Muita gente que viu a peça no palco ou na televisão…ainda me lembro…que grande peça…a Palmira era única… grande elenco….
Sobe o pano e acontece magia a la Féria.
A peça tem uma nova linguagem, um cenário de extremo bom gosto, iluminação e som perfeitos e mais do que tudo, tem actores dentro que respeitando aqueles que os antecederam, vão para além da nossa memória difusa.
Representações superlativas de Manuela Maria, Ruy de Carvalho, Maria João Abreu e Carlos Paulo à frente de um elenco de luxo.
Desta vez chorei eu, tal como as minhas avós há 50 anos.
São actores com a dimensão de Manuela Maria e de Ruy de Carvalho que me fazem acreditar que as boas árvores só podem morrer de pé.
Voltarei um dia destes para aplaudir a querida Eunice Muñoz e o João d’Ávila nos papeis de Manuela e Ruy.
Para a Eunice,os votos de uma recuperação total e rápida.
Uma palavra para Filipe La Féria. Neste momento há um único teatro aberto em Lisboa, o Politeama. E há muitos actores desempregados. O Filipe, controverso, polémico, sonhador, por vezes bruto, talentoso, obstinado e lutador, faz coisas. E este país precisa de gente que as faça.
Parabéns a todos!

teatropoliteana

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