Caro leitor, escrevo esta crónica a dois dias do Dia da Liberdade, do Dia dos Cravos, do dia em que os polÃticos entram na Assembleia com pompa e circunstância, com as rosas ao peito e com um sorriso falso estampado na face, gritando “liberdade” aos sete ventos — ecos e soundbites que depois são reproduzidos nos média, onde comentadores pagos a peso de ouro pelos canais exaltam a democracia e a liberdade, aproveitando a situação para falar dos perigos da extrema-direita.
Nas ruas das grandes capitais, Lisboa e Porto, jovens irão sair à rua gritando “liberdade, liberdade”, mas sempre acompanhados pelo kit da visibilidade, que passa por um bom smartphone com câmara topo de gama, uma central sindical atrás e um órgão de comunicação social que os irá acompanhar no trajeto.
Pelo meio, irão aparecer os polÃticos do costume, na tradicional arruada. Paulo Raimundo falará da precariedade salarial e de como o PCP lutou pela democracia. Mariana Mortágua abordará a extrema-direita, o racismo e a discriminação contra minorias. Inês Sousa Real falará da luta ecológica. A Iniciativa Liberal reivindicará que o 25 de Abril também é da direita, e o Chega dirá que os polÃticos são todos iguais, esquecendo-se de que também são polÃticos.
É sempre a mesma história todos os anos, sempre os mesmos papéis. Mas, fora deste espetáculo mediático, existem as restantes pessoas — as que vivem num paÃs onde é cada vez mais difÃcil pagar uma casa, onde se recebem salários baixos, onde a igualdade de oportunidades no acesso ao trabalho é uma ilusão, onde a liberdade de expressão é punida com rótulos de racismo ou preconceito.
Mais de dois milhões de pessoas vivem no limiar da pobreza, com grandes dificuldades sociais e financeiras. Para elas, o 25 de Abril é apenas mais um dia do ano, em que o desafio diário é arranjar comida para alimentar os filhos, em que pagar os estudos das crianças é um pesadelo, em que todos os dias choram silenciosamente e se perguntam por que é que ninguém as ajuda.
“Não foi por esta democracia que os homens de Abril tanto lutaram”


Sim, porque sejamos honestos: vivemos num paÃs em que todos gritam pela solidariedade e pela paz no mundo, mas depois somos todos seres individualistas, que olham para o lado e fingem que nada se passa — que está tudo bem.
Não foi por esta democracia que os homens de Abril tanto lutaram. Não foi para ter um paÃs assim que muitos se sacrificaram. Se os mortos desse tempo voltassem a viver e vissem um paÃs inundado pela corrupção nos seus diversos sectores, com dois milhões de pessoas a viverem em pobreza extrema, com a liberdade de expressão censurada e com a discriminação social e económica entre classes, acho que teriam vergonha do Portugal dos tempos de hoje.
O problema do status quo (polÃticos, influencers, apresentadores de televisão, comentadores, etc.) é não perceberem que são uns privilegiados. É fácil falar de democracia quando se tem uma boa casa, quando se pode passar férias no Dubai, ou quando se tem dinheiro a abarrotar nos bolsos. Mas, para quem não tem quase nada, para quem trabalha horas a fio e não vê a recompensa, a democracia não passa de uma palavra bonita.
Se os ditos comentadores olhassem para o paÃs com olhos de ver, então perceberiam a ascensão de um partido anti-sistema.













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