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5 Fevereiro, 2026

Tempestades vindas do inferno

Isto é Portugal, caro leitor, o país onde a geografia é um castigo e a meteorologia uma sentença de morte anunciada. Hoje, 5 de fevereiro de 2026, não estamos apenas a viver um “inverno rigoroso”; estamos a assistir ao funeral de um território que insiste em suicidar-se por negligência. Enquanto os gabinetes climatizados de Lisboa discutem a “transição digital”, as gentes de Leiria e Portalegre descobrem que, no meio do lodo, o único “bit” que importa é o da sobrevivência básica. Estamos no epicentro de uma coreografia macabra entre a Depressão Kristin e a Depressão Leonardo, um dueto de fúria atmosférica que decidiu transformar o país num ensaio sobre o fim do mundo, com o patrocínio da nossa inércia secular.

Em Leiria, o cenário atingiu o limiar do obsceno. É de um humor negro refinado observar que, no distrito que deveria ser um motor industrial, temos hoje 57.000 pessoas mergulhadas num apagão que já não é uma falha técnica, é um regresso forçado e violento ao século XIX. Há famílias no breu absoluto há dias, tentando salvar o que resta da sua dignidade entre paredes que transpiram o cheiro fétido do Rio Lis. Este vizinho, habitualmente discreto, decidiu galgar as margens na Barosa e nos Andrinos com uma arrogância que a nossa engenharia de fachada não soube prever. Ver o Mosteiro da Batalha — esse gigante de pedra que sobreviveu a impérios e batalhas — fechado e ferido, com os seus telhados seculares trespassados pela fúria do vento, é a metáfora perfeita da nossa impotência histórica. Os dados são pornográficos para quem tem de os pagar: prejuízos que já ultrapassam os 25 milhões de euros na região e rajadas de vento na Base Aérea de Monte Real que atingiram os 178 km/h. É uma força capaz de arrancar o juízo a qualquer governante, mas que aqui apenas serviu para transformar armazéns industriais em esqueletos de ferro retorcido e esperanças em entulho.

Mais a sul, em Portalegre, a tragédia ganhou contornos de uma violência geológica que roça o bíblico, mas sem a parte da redenção divina. A Serra de São Mamede, farta de ser apenas um postal ilustrado, decidiu descer à cidade. Foram 112 milímetros de chuva despejados numa madrugada de pânico absoluto, transformando as avenidas em leitos de rios improvisados onde dezenas de automóveis foram arrastados como cascas de noz, amontoados uns sobre os outros numa geometria de sucata e desespero que nenhum ferro-velho ousaria imaginar. O Hospital Dr. José Maria Grande teve de ativar o seu plano de emergência, não por uma vaga de doença, mas porque a própria montanha tentou entrar pelas Urgências, bloqueando acessos e lembrando-nos que, no Alto Alentejo, a natureza guarda um rancor terrível pelo nosso ordenamento do território feito a régua e esquadro de gabinete. A Linha do Leste jaz hoje em silêncio, um cadáver ferroviário cortado por árvores que se cansaram de estar de pé num país que as ignora até elas caírem sobre os carris.

O “Grande Circo Nacional”, claro, já montou a tenda sobre o lodo. É fascinante observar os repórteres a retocarem a maquilhagem enquanto ensaiam o tom de voz grave, aquela frequência exata que oscila entre a tragédia grega e o comentário de um jogo de futebol de baixo escalão. O Governo, com a solenidade de quem acaba de descobrir a pólvora, aprovou um pacote de 2,5 mil milhões de euros para o país inteiro — uma cifra que soa a milagre, mas que sabemos que será filtrada por uma burocracia tão densa como a lama de Portalegre. Há algo de profundamente sádico em exigir que idosos sem eletricidade, isolados e com a casa cheia de detritos, preencham formulários digitais para provar que a sua vida foi levada pela enxurrada. Somos o país do PDF no meio do dilúvio, o país que exige uma assinatura digital a quem nem sequer tem uma vela acesa. O balanço de 11 vítimas mortais desde o início deste ciclo de tempestades é o preço de sangue que pagamos pela nossa cultura do “depois logo se vê”. Estas pessoas não morreram por causa da chuva; morreram por causa do desmazelo acumulado em décadas de desinvestimento estrutural.

A moral desta crónica é tão ácida como a chuva que fustiga as encostas da São Mamede: em Portugal, a dignidade humana é flutuante e tem um prazo de validade mediático. Daqui a dois meses, quando o sol brilhar e a espuma dos dias trouxer um novo escândalo de redes sociais ou um golo polémico, as gentes de Leiria estarão sozinhas a tentar tirar o cheiro a mofo das fotografias de família e a lama das juntas dos azulejos. Adoramos a solidariedade de curta duração, as 18 toneladas de lonas distribuídas pelos militares e os posts indignados com emojis de choro, mas detestamos a prevenção, o planeamento e o betão que não se vê. Somos um país de amnésicos que vive entre dois alertas vermelhos, limpando as mesmas ruas inverno após inverno, com a resignação de quem sabe que a verdadeira tempestade não vem do céu, mas da nossa incapacidade de construir algo que dure mais do que uma legislatura. Hoje choramos por Leiria e Portalegre; amanhã, esquecê-las-emos com a mesma facilidade com que a água do Lis se escoa para o mar, levando consigo a alma de quem ficou com nada.

José Martins – Jornalista

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