Luís BonixeOpinião
9 Janeiro, 2017

Afirmar o jornalismo é tarefa de todos

Ver no “jornalismo do cidadão” um novo modelo de jornalismo, pretensamente mais democrático, é inocência.

Há quase duas décadas que os jornalistas não se reúnem para discutir os problemas e os desafios da profissão. Vão voltar a fazê-lo a partir de quinta-feira num congresso. Em 19 anos, passaram-se muitas coisas. Tantas que os jornalistas sentem agora a necessidade de “Afirmar o Jornalismo”. E há boas razões para isso. Nas duas últimas décadas, as redações foram demasiadas vezes esvaziadas de bons profissionais, de memória e de conhecimento. Tantas vezes esvaziadas em nome da contenção de custos que corremos o risco de ter jornais de boa saúde financeira, mas sem jornalismo!

Afirmar o jornalismo faz sentido porque as redações que não foram esvaziadas têm hoje jornalistas em condições muito menos vantajosas do que antes: trabalham mais, recebem menos. O jornalismo precisa de ser afirmado perante as pressões dos poderes político e económico. E esta vintena de anos deu-nos alguns bons exemplos dessas pressões.

No jornalismo de proximidade, as rádios locais fecharam. E muitas das que ainda têm voz, calaram o jornalismo. Nestas duas décadas, a esperança parece recair no online e nas plataformas móveis, mas ainda não há quem tenha descoberto o tal “novo modelo de negócio”.

Muitos motivos, portanto, para afirmar o jornalismo em tempos de “notícias falsas” e de redes sociais. Por isso, mais que nunca, ao jornalismo pede-se escrutínio, rigor na escolha das fontes e critério na seleção dos temas. Diversidade e pluralismo. É preciso resistir à tentação de ir na onda das redes sociais e do rumor. Resistir ao facilitismo das audiências.

Mas, se é certo que cabe aos jornalistas e ao jornalismo a maior fatia dessa tarefa de afirmação, é preciso ter presente que afirmar o jornalismo é também afirmar a democracia e a cidadania e nessa medida é uma missão que ultrapassa as fronteiras da profissão.

Precisamos todos de ser mais críticos e exigentes perante o jornalismo que diariamente nos entra pela casa. Uma boa parte do escrutínio também é tarefa de quem recebe a informação. Olhar para tudo o que vagueia nas redes sociais e em sites de origem duvidosa e ver nisso jornalismo, não é uma opção válida.

Ver no “jornalismo do cidadão” um novo modelo de jornalismo, pretensamente mais democrático, é inocência. Precisamos todos de perceber que não há jornalismo sem jornalistas e que, apesar do argumentário de alguns, a informação credível e escrutinada encontra-se no espaço que é produzido pelos jornalistas.

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