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24 Fevereiro, 2026

Publicidade no digital é um ataque à saúde mental – Opinião

A publicidade é um fator de stress emocional 

​Pense nisto por um segundo, caro leitor. Se for hoje a um quiosque e comprar uma revista, ou se se sentar no sofá a ver o telejornal na sua televisão, existe um limite. A lei é clara e implacável: 20% de publicidade. Doze minutos por hora. Nem mais um segundo. Se a estação de televisão tentar empurrar-lhe treze minutos de anúncios, a multa cai-lhes em cima antes de o anúncio acabar.

​Mas por que razão essa regra desaparece no momento em que toca no ecrã do seu telemóvel?

​Hoje, 24 de fevereiro de 2026, vivemos numa Europa onde a sua privacidade é tratada como um altar sagrado, mas a sua saúde mental é tratada como um aterro sanitário. A União Europeia gastou biliões em burocracia para criar o RGPD e o Digital Services Act (DSA). Os burocratas dizem-lhe: “Estamos a proteger os seus dados!”. Mas o que é que isso significa para si, no seu quotidiano? Significa apenas que tem de clicar em “Aceitar Cookies” trinta vezes por dia. É uma vitória invisível.

​Enquanto isso, o assalto real — o assalto à sua atenção — continua sem limites.

​Os dados são brutais. Em 2025, o rácio de publicidade nas grandes redes sociais (Instagram, TikTok, YouTube) atingiu, em média, os 42% do tempo de consumo. Ou seja, em cada hora que o leitor ou o seu filho passam nestas plataformas, quase 25 minutos são puro bombardeamento comercial. É o dobro da televisão. Legalmente.

​E quais são as consequências? A ciência já não tem dúvidas. Estudos publicados no final de 2025 pela Organização Mundial de Saúde mostram que a publicidade digital interruptiva — aqueles anúncios que “saltam” e nos impedem de ler ou ver — causa picos de cortisol (a hormona do stress) equivalentes a um susto ligeiro. Multiplique isso por 100 vezes ao dia.

​Nos nossos jovens, o cenário é de emergência. A taxa de diagnóstico de défice de atenção em adolescentes subiu 18% nos últimos dois anos. Porquê? Porque estamos a treinar os cérebros de uma geração inteira para serem interrompidos a cada 15 segundos por um algoritmo que lhes quer vender sapatilhas ou jogos de casino.

​Então, caro leitor, temos de perguntar: por que razão a União Europeia é tão rápida a multar uma empresa por causa de um ficheiro de dados, mas demorou até 10 de fevereiro de 2026 para sequer “abrir uma consulta pública” sobre o excesso de anúncios?

​A resposta, receio eu, é a de sempre: Interesses.

​Vejamos os números do lobbying em Bruxelas. No ano passado, as cinco maiores empresas de tecnologia do mundo gastaram mais de 120 milhões de euros em “consultoria legislativa” junto do Parlamento Europeu. Sabe o que é que elas estavam a comprar? Tempo.

​As Big Tech sabem que o “Dado” é abstrato. Elas podem dar o dado a Bruxelas se isso as deixar continuar a inundar o seu feed com anúncios. O dado não lhes tira lucro; o limite de quantidade, esse sim, seria um golpe fatal no seu modelo de negócio. Se o YouTube for obrigado a limitar-se aos 12 minutos por hora da televisão, os seus lucros caem para metade. E, pelos vistos, em Bruxelas, o lucro de Silicon Valley ainda pesa mais do que a paz de espírito do cidadão europeu.

​​A Comissão Europeia diz que a nova revisão da Diretiva Audiovisual vai “harmonizar” as regras. Mas não se deixe enganar. Eles estão a falar de “autorregulação” e “diretrizes éticas”. Conversa de burocrata para não fazer nada.

​O leitor tem o direito de não ser rastreado? Sim. Mas não deveria ter o direito de não ser assediado? De não ser manipulado por um algoritmo que sabe exatamente quando é que está mais vulnerável para lhe mostrar um anúncio?

​A verdade é que a União Europeia construiu uma fortaleza em torno dos nossos dados, mas deixou a porta da frente aberta para que as empresas nos roubem a sanidade. É uma hipocrisia de proporções continentais. E enquanto eles “consultam” e “debatem”, o seu telemóvel continua a apitar com mais um anúncio que você nunca pediu.

​É tempo de exigir que a lei que se aplica à televisão se aplique ao digital. Simples. Direto. É senso comum. Mas em Bruxelas, o senso comum parece ser o recurso mais escasso de todos.

Mas isto caro leitor é a união europeia, o altar da falsa moralidade e hipocrisia, os que estão sentados em Bruxelas não estão a representar – lo a si caro leitor, nunca estiveram, a verdade é que só defendem os interesses de quem lhes paga mais, no discurso odeiam o capitalismo, as grandes empresas americanas, mas quando ninguém está a olhar, as suas ações demonstram o contrário, quer nas votações no conselho europeu, quer nas propostas de lei. 

É tempo de regular os limites de publicidade nas plataformas digitais, para bem da saúde mental das gerações mais novas, se não se fizer nada, corremos o risco de as novas gerações viverem deprimidas num estado emocional extremo de ansiedade e em constante bournout.

​José Martins – Jornalista

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