ActualOpinião
15 Maio, 2026

Mundo escuro. Uma epidemia nacional.

Há gerações nascidas em tempo de guerra. Há gerações nascidas em tempo de fome. Há gerações nascidas em tempo de revolução. Esta nasceu em tempo de excelência. Foi-lhes anunciado, à entrada da maternidade, que tinham um futuro luminoso pela frente, desde que se esforçassem. Que o mundo seria deles, desde que se esforçassem. Que tudo era possível, desde que se esforçassem. A cláusula era sempre a mesma. Esforçaram-se. Esforçam-se.

 Continuam a esforçar-se. E descobriram, à medida que iam crescendo, que a recompensa pelo esforço é mais esforço, e que a única forma de manter o emprego é trabalhar como se ainda não o tivessem.

Quarenta e nove vírgula oito por cento dos portugueses entre os dezoito e os vinte e quatro anos passaram o último ano com sintomas de ansiedade, burnout, ataques de pânico ou depressão. Quase um em cada quatro admitiu já ter tido pensamentos ou atos suicidas. 

Uma em cada seis mortes de pessoas entre os dez e os vinte e nove anos é hoje, segundo o Ministério da Saúde, por suicídio: é a principal causa de morte de toda uma geração. Em 2022, segundo o INE, atingiu-se nesta faixa etária a taxa de suicídio mais alta em duas décadas. Os dados são da Marktest/Medicare, do INE, do Ministério. Repetem-se em colóquios. Aparecem em rodapé. Não dão manchete porque, perante o quadro inteiro, parecem rotina. E são. Já são.

Esta é a primeira geração da história a viver com uma câmara permanentemente apontada para o próprio rosto. Tem doze anos quando começa. Tem catorze quando aprende a editar. Tem dezasseis quando descobre que o seu valor humano é, em última análise, uma equação aritmética entre seguidores, likes e tempo de permanência. Tem dezoito quando se candidata à universidade com um portfolio a sério, notas no secundário, voluntariado, línguas estrangeiras, prémios académicos, uma vida social documentada em fotografias suficientemente solares para passar a impressão de equilíbrio emocional. Porque hoje a saúde mental também se exibe, como antes se exibiam os tiques: com uma legenda articulada, três hashtags e uma luz favorecedora.

O mercado descobriu, antes do Estado, que a infelicidade desta geração era uma mina. Vende-se-lhes ansiedade ao pequeno-almoço, sob a forma de comparação com vidas que não existem mas parecem; sob a forma de pessoas dois anos mais velhas a comprar a primeira casa que o nosso jovem nunca comprará; sob a forma de empreendedores precoces que ganham num mês o que ele ganha num ano. Depois, vende-se-lhes o antídoto à tarde, sob a forma de aplicações de meditação a nove vírgula noventa e nove por mês, cursos de mindfulness a duzentos euros, coachings de life purpose a sessenta euros à hora, chás antiestresse, cristais com vocação terapêutica, velinhas com lavanda, horóscopos com diploma. Não chega para curar, claro está. 

Chega apenas para deixar a sensação reconfortante de que se está a fazer alguma coisa. É uma economia inteira construída sobre a infelicidade controlada: não tão pequena que não venda, não tão grande que destrua o consumidor.

Há, neste país, mais aplicações de bem-estar do que psicólogos contratados pelo SNS. Os algoritmos que vendem a doença são os mesmos que vendem o remédio. Vão para a cama, em modo poupança de bateria, ao lado da pessoa que se sente sozinha e amanhã, às sete e meia, voltam à carga.

Aprenderam a falar de saúde mental antes de saberem o que era um ordenado. Conhecem o nome técnico dos transtornos antes de saberem como se preenche um IRS. Sabem o que é o burnout antes de terem casa própria. Discutem o seu apego inseguro em vídeos de quarenta segundos, mas não foram a uma consulta de psicologia, porque a primeira disponível foi marcada para janeiro do ano seguinte e custa sessenta e cinco euros que não têm. Têm vocabulário clínico e bolsos vazios. É o estado atual da literatura sobre o tema, e também o estado atual deles.

Há um equívoco antigo, e administrativamente útil, segundo o qual a depressão é uma forma evoluída de tristeza. Não é. A depressão é a impossibilidade do esforço seguinte. É a manhã em que se acorda já cansado do dia que ainda não começou. É a sensação de que o corpo é uma casa em que entraram ladrões durante a noite e levaram a alegria, deixando apenas a obrigação de pagar as contas no fim do mês. 

Há graus. Mas mesmo nos graus mais discretos há já a ausência de qualquer coisa que devia estar ali: o gosto do café, o cheiro do verão, a curiosidade pela vida dos outros, alguma coisa.

Nesta geração, a depressão tem uma forma particularmente cruel: parece-se com produtividade. Quem está doente continua a tirar boas notas. Continua a entregar trabalhos. Continua a pôr a foto do café no Instagram. Continua a rir-se nos jantares. Aprende a sorrir para a frente câmara enquanto chora no banco de trás. Aos vinte e poucos anos conhecem-se já como atores: têm a cara para a entrevista de emprego, a cara para o Instagram, a cara para os pais, a cara para a terapeuta (se houver), e algures, ao fundo, uma cara que não se mostra a ninguém porque ninguém perguntou.

Trinta por cento dos portugueses sentem necessidade de recorrer a um especialista em saúde mental. Apenas dezassete por cento o fazem, segundo o estudo Marktest/Medicare 2025. A diferença não é falha de vontade. É falha de tudo o resto: dinheiro, tempo, disponibilidade dos serviços, vergonha, exaustão, e a suspeita, bem fundada, de que o sistema não está preparado para os receber. 

Em maio de 2025 estavam vinte mil pessoas em lista de espera para consulta de psicologia no SNS, quase metade já com a espera ultrapassada, segundo a Ordem dos Psicólogos. Setenta mil em lista de espera para psiquiatria, conforme o levantamento publicado pela Visão em abril. Há, neste país, mais portugueses à espera de ser ouvidos durante quarenta e cinco minutos do que a lotação total do Estádio da Luz. Esperam-se, naturalmente, contributos significativos do próximo Plano Nacional.

E para quem perguntar pelos tempos médios da espera, eis o cardápio. Psiquiatria de adultos, prioridade muito urgente, em letras pequenas no canto da requisição: noventa e sete dias, segundo a análise da DECO PROTESTE. Crianças, setenta e nove. Em prioridade normal, no Hospital de Santarém, a espera por uma consulta de psiquiatria de adultos chega aos trezentos e trinta e seis dias, segundo a análise do Observador aos dados oficiais. Psicologia clínica não urgente , Santarém: mais de trezentos dias; Beja: idem; Aveiro: duzentos e cinquenta e quatro; Chaves: duzentos e quarenta, conforme a Renascença. Mesmo nas consultas muito prioritárias de psicologia, há centros, Vila do Conde, Póvoa do Varzim, Braga, onde se aguarda dois meses e meio. Em Portugal, em matéria de saúde mental, não existe fila normal. Existe fila e fila desesperada. Frequentemente, dão ao mesmo sítio.

E os velhos, perguntar-se-á? E os velhos. Os velhos, esses, foram silenciosamente reclassificados como excedente. O Estado é educado: não usa essa palavra. Prefere falar em envelhecimento ativo, em longevidade, em valorização da experiência. Mas a tradução administrativa de tudo isto é mais simples e mais brutal: já não são produtivos, já não consomem o suficiente, já não votam em massa, já não geram crescimento. Estorvam. Custam. E têm, irritantemente, a teimosia de continuar a existir.

A solução portuguesa para o problema é a mais elegante das soluções: o esquecimento progressivo. Não se manda ninguém embora, isso seria deselegante, e há tratados internacionais. Apenas se vai retirando, sucessivamente, aquilo de que precisam para continuarem a estar. Retira-se o centro de saúde, primeiro. Depois o autocarro. Depois a farmácia. Depois a escola onde tinham os netos e que entretanto fechou. Depois o café, que fechou porque o dono morreu e o filho está em Hamburgo. Por fim, retira-se o próprio território, não em sentido literal, mas em sentido administrativo: deixa de aparecer nos noticiários, deixa de aparecer nos relatórios, deixa de aparecer no Plano Nacional. Quando se vai ver, há vinte casas abertas em quatro aldeias, cada uma com um senhor de oitenta anos que ainda se lembra do nome do café que ali existiu.

No Alentejo, segundo as Estatísticas da Saúde do INE divulgadas em abril deste ano, a taxa de mortalidade por suicídio em 2024 foi de dezassete vírgula três por cada cem mil habitantes, quase o dobro da média nacional. No Algarve, doze vírgula nove. Nos Açores, doze. 

Entre os homens com mais de setenta e cinco anos do Alentejo, em vários concelhos, a taxa ultrapassa os trinta óbitos por cada cem mil. Em alguns, os quarenta. Em todo o país e em todas as idades, os homens morrem por suicídio entre três e quatro vezes mais do que as mulheres, em 2024, catorze vírgula dois por cem mil contra quatro vírgula três. O silêncio mata mais do que a doença. E mata sobretudo quem foi educado, em casa, a não falar.

Para um território inteiro do Baixo Alentejo, conforme tem denunciado a coordenação local do serviço de psiquiatria, há quatro psiquiatras e três prestadores de serviço. Sete agendas para cobrir uma região onde os autocarros passam duas vezes por semana, os filhos passam três vezes por ano, no Natal, no aniversário, e numa terceira data variável, normalmente fúnebre, e o Estado passa nos relatórios anuais a dizer que continua a investir. É a aritmética do abandono, e tem nome, número e código postal.

A geração que construiu este país, que emigrou na década de sessenta para o modernizar à distância, que voltou na década de oitenta para o ajudar a reconstruir, que pagou descontos durante quarenta anos para que houvesse SNS, é hoje informada, em letras pequenas e voz formal, que o Estado não tem capacidade para a atender. O motivo é técnico: faltam profissionais. O motivo é orçamental: faltam verbas. O motivo é estrutural: faltou decisão. Sempre que sobra alguma coisa, sobra para o que não dão votos. As pensões aumentam um vírgula sete por cento porque a inflação não permite menos. Os centros de saúde fecham porque a inflação não permite mais. O equilíbrio é virtuoso, do ponto de vista contabilístico. Do ponto de vista das pessoas, é outra coisa.

Em 2024, segundo o INE, a taxa nacional de mortalidade por suicídio desceu de nove vírgula oito para nove vírgula zero por cada cem mil habitantes, a primeira diminuição em vários anos. O Ministério da Saúde poderá, com a elegância retórica que distingue as administrações sem ideias, registar esta descida no próximo relatório como o triunfo da política nacional da última década. Sobram, ainda assim, perto de novecentas e setenta mortes para contabilizar. Quase três por dia. Todos os dias. Maioritariamente homens.

 Maioritariamente velhos. Maioritariamente do interior. Morrem em frequência suficiente para que a sua morte tenha deixado de ter, em rigor, valor jornalístico, gastam-se as manchetes no trânsito da véspera e no resultado do futebol.

E entre os jovens deprimidos e os velhos descartados, há o resto do país. Adultos a meio do caminho, com filhos pequenos e pais velhos, hipoteca e crédito automóvel, três meses de carga laboral concentrados em cada mês de trabalho, dois filhos que precisam de actividades extracurriculares, um cônjuge igualmente exausto, um pai com Alzheimer no Algarve e uma mãe sozinha em Bragança. Salários do início dos anos dois mil e despesas de 2026. A solução nacional, para estes, chama-se psicofármaco.

Em 2025, segundo os dados do Infarmed compilados pela Visão, dispensaram-se em Portugal continental cerca de oitenta mil embalagens de psicofármacos por dia, quase trinta milhões num ano, com encargos do SNS na ordem dos cento e cinquenta e dois milhões de euros. Em dez anos, a venda de antidepressivos cresceu oitenta e dois por cento; a de antipsicóticos, setenta e dois. A OCDE registou, entre 2000 e 2020, um aumento de trezentos e quatro por cento no consumo nacional de antidepressivos, um dos maiores crescimentos da Europa. Pertencemos, portanto, à elite. É um dos poucos indicadores em que somos consistentemente primeiros na União Europeia. Permita-se a satisfação: poucas coisas terão sido administradas neste país com tanta eficácia como a entrega de comprimidos ao balcão.

A política nacional de saúde mental cabe, hoje, num frasco castanho. Tratar é caro, demorado, exige formação técnica, exige centros, exige psicólogos, exige tempo. Medicar é barato, instantâneo, dispensa relatórios e dispensa pensamento. O Estado escolheu, com aquela clareza estratégica que distingue os pequenos países lúcidos, o que estava ao seu alcance: uma caneta, uma receita, um copo de água. Tudo o resto é problema do utente.

E ainda assim, no espelho coletivo, somos um país de gente alegre. No estudo PaRIS da OCDE, apresentado em Lisboa em 2025, três em cada quatro portugueses avaliaram positivamente a sua saúde mental, o pior resultado entre todos os países participantes. É uma performance notável: estamos simultaneamente entre os mais doentes da Europa e entre os mais convencidos de que estamos bem. Em 2025, segundo o INE, trinta e nove vírgula quatro por cento da população adulta apresentava sintomas de ansiedade generalizada, agravamento de sete vírgula quatro pontos num único ano. Onze vírgula três por cento, mais de um milhão de pessoas, vive com quadros clínicos severos. As mulheres são afetadas a quase o dobro da taxa masculina: quarenta e seis vírgula dois por cento contra trinta e um vírgula dois.

E ao mesmo tempo o silêncio engrossa. Vinte e nove vírgula três por cento dos portugueses já não se sentem à vontade para falar de saúde mental com a família ou com os amigos, mais do que em 2023. Entre quem precisa de ajuda, metade não a procura, dez pontos acima da edição anterior do mesmo estudo Marktest/Medicare. O estigma é a única instituição nacional que continua a expandir-se sem necessidade de orçamento. Funciona com horário alargado, cobertura territorial integral, e copagamento zero.

A explicação para tudo isto não cabe num frasco. Não cabe num plano. Não cabe num orçamento. Cabe numa decisão que ninguém escreve nos manifestos eleitorais, mas que está nos contornos invisíveis de cada deliberação: o silêncio é mais barato do que a resposta. A medicação é mais barata do que o tratamento. O esquecimento é mais barato do que o cuidado. A culpa, sempre devolvida ao indivíduo, resiliência, gestão emocional, autocuidado, é mais barata do que a responsabilidade coletiva.

Convém, no fim, devolver à conversa pública uma palavra que se tem evitado por delicadeza: isto não é tragédia. Tragédia é o que acontece sem aviso. Isto é decisão. Decisão tomada todos os anos, em todos os orçamentos, em todas as legislaturas, por toda a gente que tinha competência para decidir o contrário e que decidiu, uma vez, e outra, e outra, que o silêncio saía mais barato do que a resposta.

Os jovens nasceram cansados de um país que lhes prometeu tudo e lhes deu cláusulas contratuais. Os velhos morrem cansados de um país que lhes prometeu uma reforma digna e lhes está a entregar o silêncio. No meio, os adultos respiram fundo, abrem o frasco castanho da mesa de cabeceira, contam dois comprimidos, e dão início ao dia.

E na próxima legislatura, prometem-nos, haverá novo Plano. Os planos em Portugal são como as procissões, passam todos os anos, à mesma hora, com gente diferente a carregar o andor, e no final ninguém se recorda muito bem ao que se foi.

Aplauso, portanto, para o Estado. Pelo cumprimento metódico das estatísticas. Pela coerência inabalável. Pela limpeza com que se tem encarregado, de planeamento em planeamento, de orçamento em orçamento, de transformar quase mil mortes anuais em rodapé, quarenta por cento de uma geração em pacientes ambulatórios, e uma região inteira do país numa quase-paisagem sem habitantes.

Boa noite. Está tudo a funcionar.

Se está em sofrimento ou conhece alguém em risco:

SNS 24 — 808 24 24 24 (24 horas)

SOS Voz Amiga — 213 544 545 · 912 802 669 · 963 524 660 (16h–24h)

Telefone da Amizade — 222 080 707 (16h–23h)

SOS Estudante — 239 484 020 (20h–01h)

Conversa Amiga — 808 237 327 · 210 027 159

José Martins – Jornalista

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