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5 Novembro, 2024

Cidadãos de terceiro mundo

Opinião: Fora da Caixa

Por vezes, esquecemo-nos de ver a origem, ou as causas daquilo que acontece.

Somos bombardeados pela bolha mediática de um acontecimento e temos a tendência para fazer o julgamento imediato e apressado, procurando culpados e inocentes, sempre de acordo com as nossas convicções morais e às vezes ideológicas.

Mas, a verdade é que as guerras entre a polícia e os habitantes de bairros problemáticos são longas e têm origem em diversos problemas sociais e económicos que vão muito além de um acontecimento mediático.

Comecemos então pelos habitantes dos bairros sociais, quando uma criança nasce numa dessas realidades, o seu mundo é logo muito diferente daquele mundo que o cidadão (normal) encontra. Desde pequenos que se veem confrontados com o tráfico de droga, com guerra entre fações, com a ausência de polícia e qualquer apoio social, sendo esquecidos pelos Estado e pelas instituições.

Desde cedo, que percebem que os seus direitos não são os mesmos que eu e tu usufruirmos. O acesso à educação é difícil, pois, existe a cultura de bairro que diz que por mais que tentem a sociedade nunca lhe dará as oportunidades que merecem, pois, a cor da pele, o sotaque, e a origem são determinantes para serem excluídos em detrimento do cidadão (normal), por isso, para quê fazer tanto sacrifício para depois serem colocados de parte? 

Sem condições básicas em termos sociais, com casas degradadas, e numa realidade mergulhada no tráfico de drogas, estes cidadãos que foram esquecidos pelo estado, tornam-se facilmente anti sistema anti polícia e anti todos aqueles que pertencem à dita sociedade normal.

A raiva por não conseguirem seguir uma vida que gostariam transforma-se em revolta e o sentimento de marginalização e exclusão empurra-os para o sub mundo do crime, pois sem oportunidades de emprego igualitárias, resta-lhes os negócios ilícitos que são culturalmente bem vistos nos bairros onde vivem.

“O sentimento de ódio entre polícias e cidadãos de bairros sociais vai muito além da simples racionalidade, da simples análise do acontecimento mediático, existem razões estruturais que identificam uma série de problemas que são de difícil resolução”

Por outro lado, temos polícias que são mal pagos, mal compreendidos, com condições precárias na sua realidade laboral, também eles são rotulados de racistas pelas diversas fações políticas e pela classe jornalística que adora sentir o espírito do ativismo, esquecendo-se de que o seu papel é informar e não tomar partidos.

Sem as condições laborais necessárias, com um salário baixo e também sentindo a desvalorização da sua profissão é fácil sucumbir também à revolta, pois, treinados ou não, todos somos seres humanos, todos sentimos emoções e todos queremos ser aceites.

Todas estas variáveis são o caldinho perfeito para uma tragédia, pois o sentimento de ódio entre polícias e cidadãos de bairros sociais vai muito além da simples racionalidade, da simples análise do acontecimento mediático, existem razões estruturais que identificam uma série de problemas que são de difícil resolução.

Depois temos aqueles que beneficiam deste ódio, que são os partidos políticos com particular destaque para o Chega e o Bloco de Esquerda, que se alimentam das tragédias, da marginalização, do racismo, do preconceito, para não só justificar a sua existência como organização política, mas também para crescerem eleitoralmente.

E, finalmente, temos o Estado, aquele que só vai aos bairros sociais para coletar impostos e para aparecer nas campanhas eleitorais.

Este problema necessita de uma grande atenção não só do Estado, como das instituições, como da própria comunicação social. Era necessário um conjunto de medidas políticas que não só dessem condições de vida e de desenvolvimento aos cidadãos dos bairros sociais, como seria necessário dar-lhes as ferramentas úteis para conseguirem prosperar profissionalmente, pois, não basta um cheque ao final do mês, é necessário uma intervenção social permanente e não apenas atirar dinheiro em cima de um problema e esperar que se resolva. 

 Mas, como em tudo o que acontece, os problemas são esquecidos, pois, o ciclo noticioso está sempre em constante movimento e o que importa é seguir a bolha mediática. O resto perde importância pois deixa de ser atualidade. 

José Martins – Jornalista

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