Estão no quarto ao lado. A porta fechada, as luzes apagadas. O único brilho na escuridão vem do ecrã do telemóvel, refletido em olhos completamente hipnotizados. Para os pais, parecem seguros e calmos, mas a verdade é de gelar o sangue nas veias. Os nossos filhos estão a ser caçados por um ecossistema digital monstruoso que odeia as mulheres, glorifica o crime e destrói famÃlias inteiras a partir de dentro.
Este submundo perverso dá pelo nome de Manosfera. O que começou por ser uma rede escondida de blogues e fóruns obscuros na internet transformou-se numa teia perigosa de subculturas onde se faz uma verdadeira lavagem cerebral a rapazes normais.
Tudo assenta numa rampa de lançamento secreta inspirada no filme Matrix. Dizem aos miúdos que têm de escolher entre a PÃlula Azul, que seria a ignorância confortável de quem acredita na igualdade entre homens e mulheres, e a temida PÃlula Vermelha. Na cabeça destes jovens, tomar essa pÃlula vermelha significa “acordar” para uma realidade delirante, onde se afirma que a sociedade é controlada pelas mulheres e que os homens são as verdadeiras vÃtimas do sistema.
Esta rede do ódio divide-se em várias tribos perigosas, cada uma com o seu papel na destruição da mente dos adolescentes. Primeiro, aparecem os ativistas polÃticos, que usam temas reais e dramáticos, como as taxas de suicÃdio masculino ou as disputas pela custódia dos filhos, para atrair os rapazes e parecerem sérios. Logo a seguir, surgem os chamados artistas da sedução, que ensinam táticas de manipulação psicológica agressiva para tratar as mulheres como meros troféus de caça.
 Depois, aparecem os separatistas radicais, que defendem que o casamento é uma armadilha financeira e que os homens devem cortar todos os laços românticos com o sexo feminino para se concentrarem apenas no dinheiro. No fundo do poço, no canto mais escuro e fatalista desta rede, estão os chamados Incels, ou celibatários involuntários, homens consumidos por uma revolta violenta contra o mundo por não conseguirem encontrar parceiras.
Quando um jovem desliza para este último nÃvel, consome a chamada PÃlula Preta, que é o niilismo puro, a crença de que tudo está perdido. Inventaram regras pseudocientÃficas e teorias absurdas sobre a atração. Defendem que a grande maioria das mulheres só compete por um grupo muito pequeno de homens ricos e musculados, a quem chamam Chads, enquanto as raparigas comuns são apelidadas de Stacys. Para estes rapazes enfurnados nos quartos, se não se nasceu com a estrutura do rosto perfeita, com a altura certa ou com determinada genética, qualquer esforço social é inútil.Â
É uma vitimização absoluta que retira qualquer esperança ao jovem.
Estudos recentes de universidades internacionais revelam que este isolamento provoca um cenário clÃnico avassalador por trás dos ecrãs. Quase a totalidade destes utilizadores sofre de depressão crónica, a esmagadora maioria vive em estados de ansiedade extrema e metade encontra-se no espetro do autismo. O desespero é tão grande que um em cada cinco destes jovens admite ter pensamentos suicidas diários.
O grande perigo é que esta loucura mental não fica trancada na internet. Uma fação extremista pegou no ódio dos teclados e converteu-o em armas e sangue nas ruas. Desde 2014, registam-se pelo menos oito grandes ataques em massa pelo mundo diretamente ligados a esta ideologia, com mais de 60 mortes inocentes. O rasto de terror inclui o caso de Elliot Rodger, que matou seis pessoas na Califórnia e deixou um manifesto de ódio, hoje adorado nestes fóruns como um santo. Inclui também o horror em Toronto, onde Alek Minassian atropelou mortalmente dez pessoas com uma carrinha depois de avisar nas redes sociais que a revolução tinha começado. Casos semelhantes espalharam o pânico na Flórida e no Reino Unido, onde um jovem adepto da PÃlula Preta protagonizou o maior tiroteio em massa do paÃs numa década.
Mas como é que um rapaz comum em Portugal cai nesta armadilha? A resposta está na forma predatória como o TikTok funciona. O algoritmo entrega o ódio de bandeja na página principal do jovem, de forma passiva. Primeiro, o rapaz pesquisa algo inocente, como vÃdeos de ginásio ou frases de motivação. O algoritmo deteta a insegurança e começa a sugerir conteúdos sobre enriquecimento rápido e sobre a necessidade de ser um homem frio e implacável. Em poucos dias, aparecem os cortes de podcasts onde o feminismo é pintado como o grande inimigo.
Para prender os adolescentes, foi criado o mito do Macho Sigma, o lobo solitário, que não demonstra sentimentos e só pensa em sucesso. Os vÃdeos usam imagens rápidas de personagens sociopatas do cinema, como o assassino do filme American Psycho ou os criminosos da série Peaky Blinders, sempre embalados por músicas eletrónicas com batidas agressivas que aceleram o coração.
 Se alguém critica o conteúdo, os criadores defendem-se com o escudo da ironia, dizendo que é apenas uma piada ou um meme. Para piorar, usam a tática do ecrã dividido: enquanto a metade de cima do vÃdeo mostra um homem a destilar ódio contra as mulheres, a metade de baixo mostra imagens viciantes de videojogos ou vÃdeos satisfatórios. A dopamina visual do jogo hipnotiza o cérebro do miúdo enquanto este absorve o áudio tóxico sem se aperceber.
O impacto disto nas escolas portuguesas é devastador. Rapazes em idade escolar começam a usar este jargão para humilhar colegas e professoras. Adotam práticas obsessivas para alterar a aparência e começam a ver as mulheres como meros objetos previsÃveis que só se movem por interesse financeiro ou por estatuto. A misoginia passa a ser a armadura que usam para esconder o medo crónico de serem rejeitados.
Este cenário de terror explodiu na realidade portuguesa da pior maneira possÃvel. Em março de 2025, o paÃs gelou com o caso de Loures, em que três jovens influenciadores digitais foram detidos pela PolÃcia Judiciária por suspeita de terem violado uma rapariga de 16 anos. O pormenor mais macabro é que filmaram e partilharam o ato nas redes sociais. Na cabeça destes jovens, o sofrimento da vÃtima transformou-se em mercadoria para ganhar visualizações e respeito no submundo do WhatsApp e do Telegram.
A violência contra as mulheres é alimentada por figuras públicas do mundo digital nacional, é o caso de Tiago Grila um dos maiores tiktokers portugueses com milhares de seguidores nas redes sociais , que confessou num podcast, entre risos, ter atropelado uma mulher e fugido por estar a mexer no telemóvel, alegando mais tarde que tudo não passava de uma jogada de marketing. O mesmo influenciador chegou a perseguir e a gritar com a criadora de conteúdos Mariana Bossy num hotel no Algarve, a filmar o pânico da jovem apenas para ganhar palco na internet.Â
Outro exemplo gritante é o de Numeiro outro grande influencer na rede social tik tok , que lançou ataques agressivos contra as mulheres e o direito ao aborto, o que gerou mais de 200 queixas formais e levou a uma investigação do Ministério Público por discurso de ódio. Em resposta, o influenciador ofereceu dinheiro para descobrir os dados privados de quem o denunciava nas redes.
Por trás deste discurso de ódio esconde-se um negócio ainda mais lucrativo e perigoso: a predação financeira dos nossos filhos. Estes influenciadores exibem carros de luxo, relógios de ouro e maços de notas, dizendo aos miúdos que trabalhar ou estudar é para os fracos. O verdadeiro plano é arrastar os menores para ligações de apostas em casinos online ilegais sediados em paraÃsos fiscais, que operam através de grupos secretos no Telegram.
Crianças de 13 e 14 anos caem no vÃcio do jogo em semanas. Quando dão por isso, esvaziam as contas-poupança dos pais através de transferências escondidas por MB WAY para cobrir o que perderam. Os psicólogos em Portugal alertam para uma epidemia silenciosa de ludopatia infantil, cheia de casos de miúdos com crises de ansiedade que deixam de ir à s aulas por causa das dÃvidas.
E quando o dinheiro acaba, a teia aperta e o crime fÃsico aparece. O tráfico de haxixe ou de drogas sintéticas passa a ser visto pelos jovens como um negócio paralelo normal para pagar as dÃvidas do jogo. Nos ginásios, a obsessão pela imagem leva-os a consumir, sem qualquer receita médica, esteroides anabolizantes e substâncias perigosas para o coração, muitas vezes misturadas com cocaÃna para conseguirem passar noites inteiras em claro a apostar e a tentar fazer dinheiro. É o colapso total da saúde e da legalidade.
Os números oficiais do Relatório Anual de Segurança Interna são um murro no estômago e mostram que esta violência virtual saltou para as nossas ruas. A delinquência juvenil disparou mais de doze por cento nos crimes cometidos por menores. A criminalidade grupal, com ataques violentos organizados por três ou mais jovens para filmar e partilhar na internet, subiu quase oito por cento. Nas escolas, as ocorrências criminais aumentaram de forma significativa, o que prova que os recreios se transformaram em zonas de caça. Quase oitenta por cento dos crimes cometidos por jovens no espaço digital são contra pessoas, incluindo ameaças graves e extorsão, e nos casos de violência sexual todos os agressores registados pela justiça portuguesa são do sexo masculino.


Perante esta tragédia, as autoridades portuguesas parecem estar completamente paralisadas e cegas. Os média tradicionais preferem lucrar com as polémicas destes influenciadores para ganhar cliques fáceis nos seus sites, funcionando como megafones gratuitos do ódio. No Parlamento, a inércia é total. O sistema usado pelo Estado para bloquear os casinos ilegais na internet é uma anedota que qualquer criança contorna em trinta segundos, bastando-lhe alterar as definições do telemóvel ou ligar uma aplicação de VPN.
A Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica da PolÃcia Judiciária faz o que pode, mas está subfinanciada e sem ferramentas modernas para travar as redes de extorsão que operam abertamente no Telegram. O Ministério da Educação deu computadores à s escolas, mas esqueceu-se de ensinar os alunos a defenderem-se das rasteiras psicológicas do TikTok. O resultado está à vista de todos: as denúncias de violência e assédio online batem recordes todos os anos, mas o encerramento de canais destes influenciadores ou as suas condenações nos tribunais portugueses são praticamente inexistentes.
O contraste com o resto da Europa é vergonhoso. PaÃses como a França já declararam guerra a estes predadores digitais e criaram leis que proÃbem os influenciadores de promoverem casinos ilegais ou produtos estéticos perigosos a menores. Quem quebrar as regras arrisca até dois anos de prisão efetiva e multas que chegam aos 300 mil euros. No Reino Unido, as novas leis obrigam as redes sociais a apagar os conteúdos de ódio antes que cheguem aos telemóveis das crianças, e a polÃcia entra nas escolas para resgatar os jovens apanhados nestes fóruns antes que entrem no mundo do crime.
O aviso final está dado aos pais e ao paÃs. A explosão da violência juvenil nas nossas ruas, o horror do caso de Loures e a destruição financeira de milhares de famÃlias portuguesas através do MB WAY não são acidentes. São as consequências inevitáveis de um Estado que escolheu fechar os olhos e ignorar a internet, e que deixa as mentes de uma geração inteira de crianças à mercê dos piores monstros do algoritmo.
José Martins – Jornalista






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