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25 Maio, 2026

Casinos ilegais, ódio contra as mulheres, adição de drogas, riqueza artificial, o lado sombrio dos influencers digitais em Portugal

Estão no quarto ao lado. A porta fechada, as luzes apagadas. O único brilho na escuridão vem do ecrã do telemóvel, refletido em olhos completamente hipnotizados. Para os pais, parecem seguros e calmos, mas a verdade é de gelar o sangue nas veias. Os nossos filhos estão a ser caçados por um ecossistema digital monstruoso que odeia as mulheres, glorifica o crime e destrói famílias inteiras a partir de dentro.

Este submundo perverso dá pelo nome de Manosfera. O que começou por ser uma rede escondida de blogues e fóruns obscuros na internet transformou-se numa teia perigosa de subculturas onde se faz uma verdadeira lavagem cerebral a rapazes normais.

Tudo assenta numa rampa de lançamento secreta inspirada no filme Matrix. Dizem aos miúdos que têm de escolher entre a Pílula Azul, que seria a ignorância confortável de quem acredita na igualdade entre homens e mulheres, e a temida Pílula Vermelha. Na cabeça destes jovens, tomar essa pílula vermelha significa “acordar” para uma realidade delirante, onde se afirma que a sociedade é controlada pelas mulheres e que os homens são as verdadeiras vítimas do sistema.

Esta rede do ódio divide-se em várias tribos perigosas, cada uma com o seu papel na destruição da mente dos adolescentes. Primeiro, aparecem os ativistas políticos, que usam temas reais e dramáticos, como as taxas de suicídio masculino ou as disputas pela custódia dos filhos, para atrair os rapazes e parecerem sérios. Logo a seguir, surgem os chamados artistas da sedução, que ensinam táticas de manipulação psicológica agressiva para tratar as mulheres como meros troféus de caça.

 Depois, aparecem os separatistas radicais, que defendem que o casamento é uma armadilha financeira e que os homens devem cortar todos os laços românticos com o sexo feminino para se concentrarem apenas no dinheiro. No fundo do poço, no canto mais escuro e fatalista desta rede, estão os chamados Incels, ou celibatários involuntários, homens consumidos por uma revolta violenta contra o mundo por não conseguirem encontrar parceiras.

Quando um jovem desliza para este último nível, consome a chamada Pílula Preta, que é o niilismo puro, a crença de que tudo está perdido. Inventaram regras pseudocientíficas e teorias absurdas sobre a atração. Defendem que a grande maioria das mulheres só compete por um grupo muito pequeno de homens ricos e musculados, a quem chamam Chads, enquanto as raparigas comuns são apelidadas de Stacys. Para estes rapazes enfurnados nos quartos, se não se nasceu com a estrutura do rosto perfeita, com a altura certa ou com determinada genética, qualquer esforço social é inútil. 

É uma vitimização absoluta que retira qualquer esperança ao jovem.

Estudos recentes de universidades internacionais revelam que este isolamento provoca um cenário clínico avassalador por trás dos ecrãs. Quase a totalidade destes utilizadores sofre de depressão crónica, a esmagadora maioria vive em estados de ansiedade extrema e metade encontra-se no espetro do autismo. O desespero é tão grande que um em cada cinco destes jovens admite ter pensamentos suicidas diários.

O grande perigo é que esta loucura mental não fica trancada na internet. Uma fação extremista pegou no ódio dos teclados e converteu-o em armas e sangue nas ruas. Desde 2014, registam-se pelo menos oito grandes ataques em massa pelo mundo diretamente ligados a esta ideologia, com mais de 60 mortes inocentes. O rasto de terror inclui o caso de Elliot Rodger, que matou seis pessoas na Califórnia e deixou um manifesto de ódio, hoje adorado nestes fóruns como um santo. Inclui também o horror em Toronto, onde Alek Minassian atropelou mortalmente dez pessoas com uma carrinha depois de avisar nas redes sociais que a revolução tinha começado. Casos semelhantes espalharam o pânico na Flórida e no Reino Unido, onde um jovem adepto da Pílula Preta protagonizou o maior tiroteio em massa do país numa década.

Mas como é que um rapaz comum em Portugal cai nesta armadilha? A resposta está na forma predatória como o TikTok funciona. O algoritmo entrega o ódio de bandeja na página principal do jovem, de forma passiva. Primeiro, o rapaz pesquisa algo inocente, como vídeos de ginásio ou frases de motivação. O algoritmo deteta a insegurança e começa a sugerir conteúdos sobre enriquecimento rápido e sobre a necessidade de ser um homem frio e implacável. Em poucos dias, aparecem os cortes de podcasts onde o feminismo é pintado como o grande inimigo.

Para prender os adolescentes, foi criado o mito do Macho Sigma, o lobo solitário, que não demonstra sentimentos e só pensa em sucesso. Os vídeos usam imagens rápidas de personagens sociopatas do cinema, como o assassino do filme American Psycho ou os criminosos da série Peaky Blinders, sempre embalados por músicas eletrónicas com batidas agressivas que aceleram o coração.

 Se alguém critica o conteúdo, os criadores defendem-se com o escudo da ironia, dizendo que é apenas uma piada ou um meme. Para piorar, usam a tática do ecrã dividido: enquanto a metade de cima do vídeo mostra um homem a destilar ódio contra as mulheres, a metade de baixo mostra imagens viciantes de videojogos ou vídeos satisfatórios. A dopamina visual do jogo hipnotiza o cérebro do miúdo enquanto este absorve o áudio tóxico sem se aperceber.

O impacto disto nas escolas portuguesas é devastador. Rapazes em idade escolar começam a usar este jargão para humilhar colegas e professoras. Adotam práticas obsessivas para alterar a aparência e começam a ver as mulheres como meros objetos previsíveis que só se movem por interesse financeiro ou por estatuto. A misoginia passa a ser a armadura que usam para esconder o medo crónico de serem rejeitados.

Este cenário de terror explodiu na realidade portuguesa da pior maneira possível. Em março de 2025, o país gelou com o caso de Loures, em que três jovens influenciadores digitais foram detidos pela Polícia Judiciária por suspeita de terem violado uma rapariga de 16 anos. O pormenor mais macabro é que filmaram e partilharam o ato nas redes sociais. Na cabeça destes jovens, o sofrimento da vítima transformou-se em mercadoria para ganhar visualizações e respeito no submundo do WhatsApp e do Telegram.

A violência contra as mulheres é alimentada por figuras públicas do mundo digital nacional, é o caso de Tiago Grila um dos maiores tiktokers portugueses com milhares de seguidores nas redes sociais , que confessou num podcast, entre risos, ter atropelado uma mulher e fugido por estar a mexer no telemóvel, alegando mais tarde que tudo não passava de uma jogada de marketing. O mesmo influenciador chegou a perseguir e a gritar com a criadora de conteúdos Mariana Bossy num hotel no Algarve, a filmar o pânico da jovem apenas para ganhar palco na internet. 

Outro exemplo gritante é o de Numeiro outro grande influencer na rede social tik tok , que lançou ataques agressivos contra as mulheres e o direito ao aborto, o que gerou mais de 200 queixas formais e levou a uma investigação do Ministério Público por discurso de ódio. Em resposta, o influenciador ofereceu dinheiro para descobrir os dados privados de quem o denunciava nas redes.

Por trás deste discurso de ódio esconde-se um negócio ainda mais lucrativo e perigoso: a predação financeira dos nossos filhos. Estes influenciadores exibem carros de luxo, relógios de ouro e maços de notas, dizendo aos miúdos que trabalhar ou estudar é para os fracos. O verdadeiro plano é arrastar os menores para ligações de apostas em casinos online ilegais sediados em paraísos fiscais, que operam através de grupos secretos no Telegram.

Crianças de 13 e 14 anos caem no vício do jogo em semanas. Quando dão por isso, esvaziam as contas-poupança dos pais através de transferências escondidas por MB WAY para cobrir o que perderam. Os psicólogos em Portugal alertam para uma epidemia silenciosa de ludopatia infantil, cheia de casos de miúdos com crises de ansiedade que deixam de ir às aulas por causa das dívidas.

E quando o dinheiro acaba, a teia aperta e o crime físico aparece. O tráfico de haxixe ou de drogas sintéticas passa a ser visto pelos jovens como um negócio paralelo normal para pagar as dívidas do jogo. Nos ginásios, a obsessão pela imagem leva-os a consumir, sem qualquer receita médica, esteroides anabolizantes e substâncias perigosas para o coração, muitas vezes misturadas com cocaína para conseguirem passar noites inteiras em claro a apostar e a tentar fazer dinheiro. É o colapso total da saúde e da legalidade.

Os números oficiais do Relatório Anual de Segurança Interna são um murro no estômago e mostram que esta violência virtual saltou para as nossas ruas. A delinquência juvenil disparou mais de doze por cento nos crimes cometidos por menores. A criminalidade grupal, com ataques violentos organizados por três ou mais jovens para filmar e partilhar na internet, subiu quase oito por cento. Nas escolas, as ocorrências criminais aumentaram de forma significativa, o que prova que os recreios se transformaram em zonas de caça. Quase oitenta por cento dos crimes cometidos por jovens no espaço digital são contra pessoas, incluindo ameaças graves e extorsão, e nos casos de violência sexual todos os agressores registados pela justiça portuguesa são do sexo masculino.

Perante esta tragédia, as autoridades portuguesas parecem estar completamente paralisadas e cegas. Os média tradicionais preferem lucrar com as polémicas destes influenciadores para ganhar cliques fáceis nos seus sites, funcionando como megafones gratuitos do ódio. No Parlamento, a inércia é total. O sistema usado pelo Estado para bloquear os casinos ilegais na internet é uma anedota que qualquer criança contorna em trinta segundos, bastando-lhe alterar as definições do telemóvel ou ligar uma aplicação de VPN.

A Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica da Polícia Judiciária faz o que pode, mas está subfinanciada e sem ferramentas modernas para travar as redes de extorsão que operam abertamente no Telegram. O Ministério da Educação deu computadores às escolas, mas esqueceu-se de ensinar os alunos a defenderem-se das rasteiras psicológicas do TikTok. O resultado está à vista de todos: as denúncias de violência e assédio online batem recordes todos os anos, mas o encerramento de canais destes influenciadores ou as suas condenações nos tribunais portugueses são praticamente inexistentes.

O contraste com o resto da Europa é vergonhoso. Países como a França já declararam guerra a estes predadores digitais e criaram leis que proíbem os influenciadores de promoverem casinos ilegais ou produtos estéticos perigosos a menores. Quem quebrar as regras arrisca até dois anos de prisão efetiva e multas que chegam aos 300 mil euros. No Reino Unido, as novas leis obrigam as redes sociais a apagar os conteúdos de ódio antes que cheguem aos telemóveis das crianças, e a polícia entra nas escolas para resgatar os jovens apanhados nestes fóruns antes que entrem no mundo do crime.

O aviso final está dado aos pais e ao país. A explosão da violência juvenil nas nossas ruas, o horror do caso de Loures e a destruição financeira de milhares de famílias portuguesas através do MB WAY não são acidentes. São as consequências inevitáveis de um Estado que escolheu fechar os olhos e ignorar a internet, e que deixa as mentes de uma geração inteira de crianças à mercê dos piores monstros do algoritmo.

José Martins – Jornalista

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