O Convento de Nossa Senhora da Luz, em Arronches, acolheu a inauguração da exposição “Blasphémia – A media arte digital na reinterpretação do património”, uma mostra que cruza tecnologia, identidade cultural e reflexão crítica, colocando Arronches no centro de um inquietante exercício artístico.
Com curadoria e criação do artista Pedro Henriques, a exposição apresenta como peça central a instalação “ A Forte Arronches (Sojugada ) – Guerra, Memória e Simulação”, numa referência direta ao canto de Camões “Os Lusíadas” . Esta mostra é impactante, perturbadora e profundamente provocadora. Através de processos de inteligência artificial, o autor transforma imagens contemporâneas da vila de Arronches em cenários de guerra, criando uma narrativa visual fragmentada e não linear, sem início ou fim definidos, que permite ao espectador entrar em qualquer momento da experiência.
Ao projetar a violência sobre um território familiar, a obra aproxima o local do global, convocando o público a refletir sobre a vulnerabilidade do património, da memória e da identidade coletiva. Entre o real e o imaginário, constrói-se um espaço instável onde o impossível se torna plausível, desafiando a perceção e o conforto do espectador.


O título da instalação recupera a expressão arcaica “A Forte Arronches (Sojugada)”, numa referência direta ao canto de Camões nos Os Lusíadas, sobre Arronches.
A palavra “Sojugada” subverte essa ideia de força e resistência, associando-a à ruína e fragilidade, num contexto contemporâneo marcado por incerteza e transformação.
Sobre a exposição, Pedro Henriques sublinhou o caráter provocador do próprio nome: “Blasphémia é um título que confronta o sagrado que tanto valorizamos, como o património e a identidade cultural. As pessoas sentem-se inquietas quando tocamos no património, mas ele deve ser questionado.” O artista defende ainda a necessidade de abrir caminhos para que as gerações futuras possam encontrar e preservar a sua identidade cultural.


Já o presidente da Câmara Municipal de Arronches, João Crespo, destacou a singularidade da mostra, classificando-a como “algo diferente” e elogiando “o trabalho fantástico de Pedro Henriques”, sublinhando ainda a importância do convento como um espaço com dinâmicas culturais permanentes. O autarca mostrou-se particularmente impressionado com a componente multimédia da exposição.


Na instalação “Forte Arronches Subjugada”, apresentada no Convento, Pedro Henriques assume esta obra como uma rutura com a sua zona de conforto, classificando-a como a mais polémica de toda a exposição. Concebida como um artefacto de reflexão sobre a conjuntura atual, a peça parte da ideia de que vivemos num aparente “oásis”, questionando a sua fragilidade: até quando permanecerá? Ao projetar a destruição sobre o património local, o artista levanta uma questão central – quando tudo é arrasado, onde reside a identidade coletiva? Inspirado por realidades contemporâneas, incluindo territórios devastados na Europa como a Ucrânia, Henriques sublinha que não são apenas vidas que se perdem, mas também cultura e memória. Desenvolvida com recurso à inteligência artificial, a instalação levanta ainda uma inquietação adicional junto do público: onde se traça hoje a linha entre o real e o artificial nas imagens que consumimos diariamente?
A exposição divide-se em duas áreas distintas: uma primeira zona de galerias, onde são apresentados trabalhos de alunos do Instituto Politécnico de Portalegre, acompanhados na realização dos trabalhos por Pedro Henriques e pelo Professor João Sequeira, responsável pela Unidade Curricular que desenvolveu a atividade.
Entre os artistas participantes, destaque para Vítor Gomes, animador de renome, que trabalhou a realidade aumentada; Nelson Caldeira, que explorou a arte geométrica e generativa com foco na interatividade; e João Paulo Miranda, produtor musical especializado em paisagens sonoras, que, em colaboração com Luís Figueira, reinterpretou as “Pedrinhas de Arronches”, criando uma ponte entre o tradicional e o contemporâneo.
Apesar das limitações tecnológicas assumidas pelo próprio curador, “Blasphémia” apresenta-se como uma exposição ousada e reflexiva, que desafia o público a reconsiderar o património não como algo intocável, mas como um campo vivo, em constante transformação.














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