ActualOpinião
8 Fevereiro, 2026

Uma grande derrota para Ventura – Opinião

À medida que os ponteiros do relógio avançam nesta noite de 8 de fevereiro de 2026, as projeções consolidadas da TVI/CNN desenham um cenário que desmente os vaticínios de um colapso sistémico. O “sismo” político que muitos antecipavam — a subida imparável da direita radical ao topo do regime — não passou de um tremor de terra contido pelas fundações da democracia portuguesa. António José Seguro, com uma vitória que oscila entre os 67,0% e os 71,4%, não obteve apenas uma eleição; recebeu um mandato de estabilidade que reflete um desejo coletivo de previsibilidade. No reverso da medalha, André Ventura, ao estagnar na casa dos 28,6% a 33,0%, confronta-se finalmente com o seu “teto de vidro”.

A primeira e mais profunda nuance desta noite reside na falha estratégica do projeto de André Ventura. Os números demonstram que a sua narrativa de rutura é inerentemente incapaz de capturar o eleitorado moderado e liberal. Ao não conseguir atrair os votos que se identificam com figuras como Cotrim Figueiredo, Gouveia e Melo ou Marques Mendes, Ventura prova que a sua liderança, embora barulhenta, é divisiva demais para ser maioritária. A direita portuguesa é, na sua génese, institucionalista; quando confrontada com o abismo da polarização, a classe média recua. O resultado de hoje marca o fim da hegemonia de Ventura sobre o campo da oposição, expondo que o seu crescimento não é infinito, mas sim limitado a um nicho de protesto que não se traduz em confiança governativa.

Este desfecho em Portugal não é um evento isolado, mas sim o reflexo de uma tendência que se tem observado em várias geografias europeias, como aconteceu recentemente nos Países Baixos. A direita radical, que habitualmente surge com um ímpeto meteórico capitalizando o descontentamento, parece atingir um ponto de saturação assim que a “novidade” se esgota. Ao tornar-se parte da “mobília” parlamentar ao longo dos últimos anos, o Chega perdeu o seu verniz de outsider. A ideia de um partido que vem “limpar o sistema” foi desconstruída pela própria convivência democrática: o eleitorado percebeu que, por trás da retórica incendiária, falta a substância de Estado e a capacidade de diálogo necessária para a estabilidade.

Por outro lado, a vitória de António José Seguro é o triunfo de uma estratégia que muitos rotularam de inerte, mas que se provou cirúrgica. Seguro soube ler o cansaço do país. Num mundo saturado de ruído mediático e política de espetáculo, a sua campanha “sem pressa”, focada na credibilidade e na honestidade, foi interpretada como um porto de abrigo. Mesmo beneficiando de uma cobertura mediática favorável, o mérito de Seguro foi o de oferecer o que o seu adversário não possui: serenidade. O apoio público de figuras como Leonor Beleza simboliza esta “ponte institucional” que priorizou a defesa da República em detrimento de lógicas partidárias. Em 2026, a “honestidade aborrecida” tornou-se o maior trunfo eleitoral contra o populismo performativo.

Com uma abstenção a rondar os 37,5% e os 42%, os dados oficiais confirmam que Portugal continua a ser um país de centro por temperamento. A ideia de que o país estava à beira de uma revolução reacionária foi derrotada pela resiliência do seu eleitorado mais silencioso. A extrema-direita não desapareceu, mas atingiu a sua maturidade política: um reduto ruidoso, mas insuficiente para reclamar o destino da nação. Portugal escolheu, hoje, a continuidade sobre a rutura, provando que, perante o grito do populismo, o país ainda prefere o sussurro das instituições.

José Martins – Jornalista

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