Oiço toda a gente, na opinião pública, a falar dos tiques ditatoriais de Donald Trump, como se estivéssemos a assistir ao nascimento de uma nova ordem internacional — uma em que o direito internacional não passa de meras folhas de papel para satisfazer burocratas. O espanto, a indignação e a surpresa tomaram conta do espaço mediático. Comentadores, jornalistas, cronistas e polÃticos correm para as televisões a gritar: “Como é que isto é possÃvel?”, “Trump está doido!”, “Os Estados Unidos não podem interferir na polÃtica de outros paÃses!” Sim, caro leitor, esta última frase é para comédia — como se fosse novidade os americanos meterem o nariz onde não são chamados.
Basta olhar para o passado para constatar que os Estados Unidos sempre interferiram na polÃtica de outros paÃses: a invasão do Iraque, a ocupação do Afeganistão, as desestabilizações sistemáticas no Médio Oriente através da CIA, a escuta de chamadas telefónicas de lÃderes aliados através da NSA — já para não falar dos prisioneiros em Guantánamo, torturados sem qualquer acusação formal. A polÃtica externa americana sempre foi agressiva e violou, repetidamente, o direito internacional. O rapto de um chefe de Estado na Venezuela é apenas mais um ato de arrogância imperial.
Mas surge a questão: o que mudou para que agora a comunidade internacional se indigne? Será por ser Donald Trump o presidente? Ou será porque Trump dispensa o teatro habitual de consultar os parceiros da NATO — como se a organização fosse verdadeiramente relevante — e prescinde da narrativa moral segundo a qual tudo o que os americanos fazem é para o bem do mundo?


Talvez o incómodo resida precisamente aÃ: na ausência de uma narrativa oficial. É demasiado desagradável, para nós europeus, que não haja uma história bem construÃda dos bons contra os maus. É demasiado perturbador ouvir Trump admitir que tudo o que faz é pelo petróleo e pelas riquezas alheias. Provoca mal-estar ver que os americanos já nem se dão ao trabalho de inventar desculpas para fazer aquilo que lhes apetece.
Pior ainda é constatar que a Europa deixou de contar no paradigma internacional. Não temos peso nas decisões tomadas a nÃvel mundial. Basta observar as novas dinâmicas de poder: três grandes potências dominam o globo — a Rússia, com o seu poderio militar; a China, com o seu poderio económico; e os Estados Unidos, com a sua combinação de força militar, financeira e de inteligência.
O medo da Europa é que quem domina estas potências são homens que preferem o uso da força aos tratados internacionais. E é precisamente aqui que reside o problema: nós, europeus, não investimos numa defesa comum nos últimos anos. Não temos capacidade de nos defender, e sem os Estados Unidos a NATO é ineficaz.
Nada nos garante que, se a Rússia conquistar a Ucrânia, não avance pela Europa dentro. Nada nos garante que a China não anexe Taiwan. Nada nos garante que os Estados Unidos não anexem a Gronelândia e procurem dominar a América do Sul.
Nós, europeus, com a nossa arrogância moral, perdemos demasiado tempo preocupados com questões secundárias — como a regulamentação dos monopólios das empresas norte-americanas — e esquecemos por completo que a segurança deveria ser um dos eixos estratégicos fundamentais de qualquer organização polÃtica.
Agora, resta-nos assistir a tudo o que se passa no cenário internacional de pipocas na mão, como se estivéssemos a ver um filme do James Bond — e fingir que não passámos os últimos anos a confundir o vilão com o herói, para descobrirmos agora que o herói nunca foi herói: foi sempre o antagonista.






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