OpiniãoCarlos Rodrigues
24 Outubro, 2016

Reunião de atrasados compulsivos

Alguns não chegariam ou porque se deixaram dormir ou porque ainda não se deitaram, outros chegariam bem mais tarde porque lhes dá um prazer secreto e especial saber que os outros esperam por eles.

São 10 da noite e até a noite se atrasou. Raia um sol contundente e três dos vinte membros já chegaram à reunião que estava marcada para as vinte para as oito. Ali, como acontece em todas as sessões, um grupo de atrasados compulsivos desabafa sobre a sua condição. Muitos deles já perderam empregos, outros amigos, outros apenas relógios. Em comum, têm a incapacidade de comparecer a horas em qualquer lugar, em qualquer circunstância.

 Manel, um dos membros já presentes, chegou ao parto da sua mulher quando já era avô. Maria, a filha de Manel, está também presente – ela que tem uma dependência incorrigível por maquilhagens e chega sempre aos eventos quando todos os outros padecem de uma inebriante ressaca.

José prepara o seu testemunho quando o telefone toca – do outro lado soa Matilde presa do trânsito – e quase se consegue imaginar como gesticula enquanto diz que chegará atrasada. José não lida bem com a interrupção e perde-se no raciocínio – na verdade é apenas atrasado mental e está na reunião errada, mas foi o primeiro a chegar.

Entretanto acabou o jogo do Benfica e chegaram mais três membros que se desculparam com o excessivo tempo de compensação concedido pelo árbitro. Depois chegou o árbitro que tinha ido buscar Matilde a casa. Depois chegou um tipo que assumiu ali a paternidade do filho de Maria.

Alguns não chegariam ou porque se deixaram dormir ou porque ainda não se deitaram, outros chegariam bem mais tarde porque lhes dá um prazer secreto e especial saber que os outros esperam por eles.

Outros que vomitam pontas de ego por cada poro aludem vaidosos, ao preenchimento da sua agenda e aos quatro ou cinco compromissos onde marcarão presença antes desta reunião. Esses, raras vezes aparecem. Na verdade, a reunião é apenas mais um rabisco na agenda, um pretexto para dizer aos amigos que não comparecerão, seja qual for o convite. Alguns destes são os que se deixaram dormir. Outros são apenas inúteis, outros apenas pretensiosos.

 Depois de cada um apresentar os seus testemunhos, é hora da reflexão. Serafim, o orientador da reunião, que em tempos trocou um pacemaker por um relógio suíço, pega na palavra e tece a consideração final:

 “Cada vez que um de vós se atrasa, faz com que a pessoa que espera perca também o seu tempo, perca entusiasmo e perca vontade de estar convosco. Não assumam o tempo como sendo todo vosso, não queiram essa responsabilidade e acima de tudo, respeitem quem não deve esperar – seja o vosso chefe, o vosso amigo ou o vosso familiar. O tempo é dinheiro e há dívidas que não se pagam”.

A reunião findou.

 Mais tarde chegou mais um elemento. Encontrou a sala vazia e voltou para casa onde tinha as malas à porta. Nas reuniões seguintes chegou a horas.

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