Fernanda SesifredoOpinião
4 Abril, 2016

Quem é o mais maluco?

Não estará muito doente quem humilha publicamente alguém doente só pelo prazer de humilhar?

Tenho por hábito, bem cedo, sentar-me sozinha numa esplanada qualquer a tomar o meu café, a ler e escrever até que o sítio fique quase à pinha. Abstenho-me facilmente do que está à minha volta e raras vezes me levantei antes da habitual debandada para me dirigir a conhecidos desconhecidos e me armar em ” rapariga-que-vai- em-defesa-dos-desprotegidos” mas neste caso a conversa ferve-me o sangue.

Perto de mim ouvi o seguinte:

“-… e aquela é maluca. Uma coisa que eu cá sei (as mulheres presentes riam de uma forma arrogante como se soubessem aquele filme de cor) ou o manicómio e passava-lhe logo a maluqueira da depressão. Só aquele cabelo e aqueles olhos dizem tudo! Querem ver?

– Oh Maria, (nome fictício) já tomou os comprimidos hoje?

(a pergunta, feita com uma das mãos a disfarçar a boca, fazia eco à cobardia, claro está!)

Tal teatro de inferior categoria foi motivo de fartas risadas dentro do pequeno grupo onde se dispararam soluções para aquela a quem chamaram maluca. Só não explicaram se mudando o corte de cabelo ou o penteado e escolhendo um olhar a condizer, a maluca seria menos maluca. Desta vez foi o mote apropriado para me ausentar antes do desejado mas não sem antes me dirigir àquele grupo de tijolos crus e ripostar, tomando o lugar da senhora (até porque a visada continuou o seu caminho como se aquele discurso lhe fosse familiar até ao tutano, já tivesse gasto resposta ou concluindo que há pessoas, coitadas, que deviam tratar a maluqueira que as acomete.

E então a minha retórica foi a seguinte:

-Perdão, um reparo: para ajudarmos aqueles que, segundo a vossa avaliação, são malucos a não sentirem a dor das vossas tristes palavras é preciso contrariamos esta miserável e obsoleta tendência em sermos arrogantes, gente bruta quando fazemos juízos de valor que não deixam quem precisa de nós aproximar-se para admitir o seu problema e pedir a ajuda que tanto precisa. Falo assim, sem medo, porque vivi de perto o tema que mereceu a vossa infantil atitude. E já agora, esta pessoa que aqui toma tranquilamente o seu café todos os dias, lê e escreve, tem cabelo e olhos talvez normais e é tão ou mais maluca que a senhora de quem falavam.

fernanda

Confesso que fiquei com o coração apertado e acelerado mas valeu bem a pena! Retirei-me com intenção de voltar amanhã a uma esplanada qualquer, talvez a mesma, para fazer as coisas do costume e não fiquei minimamente incomodada com o juízo que poderão ter feito de mim.

A grande maioria das pessoas que é acometida por este tipo de patologias vive mergulhada no medo, numa extrema e dolorosa ansiedade e tem razão quando afirma não conseguir libertar-se de tais sentimentos. A sociedade, em geral, não está preparada/educada para conviver com a depressão do outro, o que considero serem fragilidades não só do próprio Ser Humano mas também de um Serviço Nacional de Saúde impreparado para trazer para o lado de fora as ferramentas que doentes e seus familiares necessitam para não serem vítimas do preconceito, como relato neste caso em particular.

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