Carlos RodriguesOpinião
2 Novembro, 2015

O Não Jornalista

O jornalista e a imparcialidade formam um casamento de fachada. É uma relação tensa, atribulada e pública, susceptível às vozes incendiárias, bem ou mal intencionadas.

A imparcialidade é uma cônjuge imaginária, que surgiu nos livros, e da qual o jornalista não se deve separar, caso contrário, vozes defensoras dos cânones estabelecidos se insurgirão. Esqueçamos por um momento a imparcialidade, e vamos imaginar que o jornalista tem uma amante: a objetividade; ou até duas: a responsabilidade informativa.  Mulherengo por natureza, o jornalista sabe que tem as suas próprias motivações,  e por isso, não consegue lidar com a frieza e desumanidade da imparcialidade. Mas ainda assim, sabe que se fizer um trabalho focado, pode namorar as duas amantes e recolher relativo reconhecimento.

Não bastassem os dilemas pessoais, o jornalista é ainda confrontado com as exigências de um status quo – Deve adaptar-se à sociedade, mas sobretudo à empresa – a matriarca que dita as regras, que condiciona o seu trabalho , que lhe dá as matrizes e o alerta para não descarrilar da filosofia estabelecida a priori.  Ao jornalista não cabe julgar se faz algo que se aproxima de jornalismo, não cabe julgar se compila informação de interesse público, tampouco se pratica publicidade elegante disfarçada de jornalismo. Limita-se a dar o corpo às balas, e na verdade tem uma posição semelhante à de um operador de call center – é um alvo exposto, digno de punição (a)moral, a quem é fácil atirar umas asneiras no fim de um dia menos bom.

E apesar da vida conturbada, o jornalista continua o seu trabalho. Nos raros períodos de menor pressão da matriarca, o jornalista escolhe aquilo que deve noticiar, escolhe o ângulo que lhe quer dar, escolhe o que menos interessa e aquilo que muito lhe interessa. E fá-lo de uma forma inconsciente, ao leme daquilo em que acredita. Neste caso, e apesar de mais uma vez ficar nu perante a multidão, os reparos serão menores, em comparação com as críticas à informação, que outrora ele viciou propositadamente. Parece-me, na verdade, que o jornalista se torna menos vulnerável quando consegue esconder as ideias perto do seu subconsciente. E isto, garanto-vos, requer do jornalista, um treino doloroso, mas redentor. E é nestes momentos, que ele menos se afasta da imparcialidade e se aproxima das suas amantes.

Quem assiste a tudo isto de fora, pensa naturalmente, que o jornalista tem uma vida de sonho, que é um exemplo a seguir. E talvez por isso, e apesar de todas as críticas, continua a interiorizar aquilo que ele diz, quer ele o faça de uma forma consciente, inconsciente, narcisista ou corporativa. Porque o jornalista tem essa capacidade de persuasão, de encaminhar o estado das coisas, é um conselheiro. E a sua cônjuge nem sequer consegue co-habitar com este poder, do qual ele faz parte. E por isso, não peçam ao jornalista um casamento forçado – que resultaria apenas se lhe apagassem a memória e o tornassem independente de qualquer soberano.

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