A exposição de fotografia “Sacerdotes da Alquimia”, da autoria de Miguel Machado, foi inaugurada este sábado, 24 de janeiro, no Convento de Nossa Senhora da Luz, em Arronches, integrando a programação cultural do concelho e reforçando a valorização da criação artística contemporânea e do património cultural imaterial.
Composta por um conjunto de fotografias a preto e branco, acompanhadas por textos e narrativas de três gerações e três perspetivas distintas, a mostra propõe uma reflexão profunda sobre a cultura enquanto espaço de encontro, memória e continuidade. Na inauguração, Miguel Machado sublinhou que esta exposição “é a história de encontros que reflete o que eu acho que é a cultura, um ponto de encontro, um movimento de natureza cultural”.
Os trabalhos apresentados abordam quatro universos centrais: Arte Xávega (na praia da Vieira, Marinha Grande), comércio ambulante, pesca Avieira (nas Caneiras, Santarém, e em Escaroupim, Salvaterra de Magos) e Olaria (na Flor da Rosa, Crato, e na Bajuca, Leiria). São retratados ofícios e práticas onde o saber não se escreve, transmite-se, passando de geração em geração.


Para o autor, a fotografia assume um papel essencial na preservação do património imaterial. “Preocupo-me e dou extrema importância à preservação do património imaterial, que não pode ser armazenado. Pode fazer-se através de registos e, para mim, a forma mais próxima é através dos registos fotográficos”, explicou. A opção pelo preto e branco surge como uma escolha consciente, uma vez que “não distrai”, convidando à contemplação e à leitura do tempo inscrito em cada imagem.
Miguel Machado explicou ainda a origem do título da exposição. “Sacerdotes” porque são pessoas que exercem uma profissão nobre e honrada, com um território que funciona como templo; “Alquimia” porque transformam matérias-primas, esforço e percurso em valor cultural, social e económico. “Estas imagens nascem da fusão entre a memória e o presente, o barro, o mar, o rio, o fogo e o corpo em movimento”, afirmou.
O autor destacou que os protagonistas destas fotografias são verdadeiros agentes de transmutação: transformam o mar em sustento, o barro em uso, o percurso em comércio e o esforço em sobrevivência. “Não trabalham em laboratórios, mas em praias, rios, ruas, feiras e oficinas. O seu ritual é o trabalho e o seu templo, o território.”
Durante a inauguração, Miguel Machado deixou ainda a sugestão de se realizar um levantamento de preservação do património imaterial de Arronches, nomeadamente de manifestações culturais como os Romeiros da Esperança e as Pedrinhas de Arronches, reforçando a necessidade de salvaguardar práticas que vivem essencialmente nas pessoas.
“Sacerdotes da Alquimia” afirma-se, assim, não apenas como uma exposição fotográfica, mas como um ato de salvaguarda da memória coletiva, um convite à contemplação e, simultaneamente, à responsabilidade de preservar e divulgar as artes e ofícios que ainda resistem no tempo. Porque, como defende o autor, a cultura e as tradições vivem indiscutivelmente nas pessoas, enquanto houver quem saiba, quem faça e quem transmita.












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