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21 Janeiro, 2026

Não voto em Seguro – Opinião

Chegou ao fim a primeira volta das eleições presidenciais. Seguem para a segunda volta António José Seguro e André Ventura. Pelo caminho ficaram candidaturas que, no meu entender, tinham todas as condições para alcançar o sucesso, não fosse uma campanha mal conduzida. Refiro-me, em particular, ao almirante Henrique Gouveia e Melo e a Luís Marques Mendes.

Tanto Luís Marques Mendes, apoiado pelo PSD, como Gouveia e Melo — que se apresentou como independente e “fora do sistema” — demonstraram uma confiança excessiva. No caso do almirante, essa suposta independência ficou fragilizada quando surgiram apoios de figuras de peso do sistema político e económico, como Rui Rio, Rui Moreira ou Mário Ferreira, acionista da Media Capital.

Gouveia e Melo tinha, objetivamente, tudo para vencer estas eleições. O sucesso na coordenação da vacinação contra a Covid-19 valeu-lhe uma enorme popularidade e um profundo respeito por parte da população. A isso somava-se uma longa e sólida carreira militar. Esse conjunto traduziu-se num capital político considerável, ao ponto de as sondagens anteriores à candidatura lhe garantirem, praticamente, a passagem à segunda volta. 

No entanto, seja por falta de experiência política, por ingenuidade ou por uma equipa de comunicação pouco eficaz, o candidato revelou-se fraco nos debates e nas intervenções públicas. A incapacidade de se posicionar claramente entre a esquerda e a direita traduziu-se numa ausência de convicção ideológica. Não se pode estar em ambos os lados da barricada: ou se é de direita ou se é de esquerda. Essa ambiguidade acabou por conduzir ao descrédito.

Ainda assim, lamento este desfecho. Acredito que Gouveia e Melo é um homem simples, genuíno, e merece toda a consideração por ter servido o país com dedicação. 

Luís Marques Mendes, por seu lado, não percebeu que o país não queria “outro Marcelo” na Presidência. O país queria mudança. O candidato apoiado pelo PSD não entendeu que já não se ganham eleições presidenciais comentando política aos domingos na televisão. Hoje existem múltiplas plataformas de comunicação que permitem, de forma democrática, que diferentes candidatos cheguem às pessoas, transmitam ideias e visões do mundo. O tempo em que os média tradicionais decidiam eleições ficou para trás. 

Cotrim Figueiredo foi, para mim, a grande surpresa desta campanha. Mostrou-se firme, diversificou o seu eleitorado e soube comunicar com os mais jovens através das redes sociais, com conteúdos dinâmicos e interessantes. Esteve também na rua, nomeadamente em lares de idosos, tentando — e conseguindo em parte — alargar a sua base eleitoral. Infelizmente, o candidato da Iniciativa Liberal caiu numa das armadilhas clássicas dos ativistas travestidos de jornalistas: a famosa pergunta “apoia André Ventura na segunda volta?”

Não se percebe como Cotrim hesitou. Bastou essa hesitação para alimentar a habitual campanha de difamação: “Cotrim apoia Ventura”, “a Iniciativa Liberal é a nova direita radical, mas mais educada”. A notícia do alegado assédio foi a estocada final, na tentativa clara de impedir o candidato de chegar à segunda volta. 

A esquerda, mais uma vez, saiu esmagada. Apesar da vitória de António José Seguro, este passou à segunda volta com uma das percentagens mais baixas de sempre para um candidato presidencial. Os restantes candidatos de esquerda não ultrapassaram nenhum deles os 3%, o que demonstra bem a irrelevância eleitoral em que a esquerda se encontra atualmente.

André Ventura não surpreendeu. O seu eleitorado é fixo e fiel. Trata-se de um eleitorado zangado com o país, zangado por viver na pobreza, e que encontrou finalmente uma voz em Ventura. A grande questão é esta: consegue ele ir além desse núcleo duro?

Muito se diz que isso é impossível, que a taxa de rejeição de André Ventura é elevadíssima — pelo menos é isso que os jornalistas afirmam. Mas com base em quê? Em sondagens cujos critérios de seleção e metodologia raramente são claros?

A verdade é simples: aritmeticamente, a direita é hoje maioritária em Portugal. Se André Ventura conseguir captar o eleitorado da Iniciativa Liberal, parte do eleitorado de Gouveia e Melo e ainda uma fatia do eleitorado de Marques Mendes — algo que não é assim tão improvável — então a vitória sobre António José Seguro deixa de ser um cenário remoto.

Permita-me, caro leitor, ser absolutamente claro: jamais seria capaz de votar em Seguro. Não é uma questão pessoal, mas ideológica. É uma rejeição do socialismo enquanto conceito. Esta ideia de organizar o país apenas para beneficiar os “pobrezinhos” e os “desgraçados”; aqueles que, fruto das circunstâncias, nada produzem de relevante; verdadeiros parasitas do sistema, sem escolaridade, que recebem demasiado ao final do mês para nada fazerem.

Durante toda a minha vida fui pobre. Vivi sempre em circunstâncias difíceis, por vezes quase aflitivas. Mas apesar da minha deficiência e do abandono dos meus pais, nunca baixei os braços. Nunca vivi à custa do trabalho dos outros, porque não tenho esse direito. E, acima de tudo, recuso o rótulo do coitadinho que vive de ajudas.

No fundo, o socialismo é isto: uma ideologia que não incentiva o mérito, que não protege quem quer mais, quem ambiciona mais, quem luta por mais. É uma questão de mentalidade e de valores morais. E são esses valores que me impedem de votar numa forma de ver o mundo baseada na pena e não no mérito.

Por isso, na segunda volta, não votarei em nenhum dos candidatos. 

José Martins – jornalista

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