Na manhã de 14 de Abril de 2026, a meio do segmento “Crónica Criminal” do programa Dois às 10, emitido em directo a partir das 10h00 na TVI, Cristina Ferreira — apresentadora, directora de Entretenimento e Ficção do canal e accionista do grupo — comentou o julgamento de quatro influencers acusados de violarem uma adolescente de 16 anos em Loures, em Fevereiro de 2025, e de terem filmado e difundido os abusos em plataformas como o TikTok. Foi a propósito desse caso que perguntou, dirigindo-se à psicóloga convidada, se, num cenário de quatro rapazes em “adrenalina”, mesmo que a vítima tivesse pedido para parar, alguém seria capaz de compreender o “não quero mais”.
O efeito foi imediato. Mais de 3300 queixas à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), incluindo uma apresentada pelos pais da vítima. O Movimento Democrático de Mulheres apresentou queixa à Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género e à própria ERC. A TVI saiu a público em defesa da apresentadora, prometendo recorrer aos tribunais. Cristina Ferreira, depois de 48 horas de silêncio, lamentou o que classificou como exercícios de puro ódio pessoal e reiterou que se tratara de uma pergunta, não de uma opinião — a velha muleta argumentativa de quem foi apanhado a dizer algo indefensável em directo.
Digamos as coisas com clareza: Cristina Ferreira esteve mal. Muito mal. E esteve mal de uma forma que merece ser destrinçada, não varrida debaixo do tapete com o guião já conhecido do “descontextualizado”.
A questão do horário — e de quem está do outro lado do ecrã
Importa fixar um detalhe que tem sido tratado como cenário, mas é, na verdade, parte da substância. O Dois às 10 não é um programa de madrugada nem um podcast de nicho. É um talk-show emitido em directo, de segunda a sexta, a partir das dez da manhã – a faixa horária em que a televisão portuguesa é consumida, maioritariamente, por mulheres, por reformadas, por trabalhadoras de turnos alternados, por pessoas acima dos 55 anos. Os estudos da Marktest e da Carat são consistentes há mais de uma década: o consumo de televisão cresce com a idade, e os maiores de 64 anos são o segmento que mais tempo passa diante do ecrã, seguidos dos 55-64. Nas manhãs, em particular, o perfil afunila-se ainda mais: o público-alvo desta faixa são donas de casa, pessoas com horários atípicos e, sobretudo, pessoas mais velhas — como o próprio sector publicitário português documenta há anos.
Este pormenor muda tudo. Significa que a pergunta de Cristina Ferreira não foi projectada para um estúdio vazio nem para um nicho informado: caiu na sala de estar das mães que criaram raparigas numa cultura que as mandou sempre voltar cedo para casa, das avós que ouviram a vida inteira que “a culpa também é um bocadinho da rapariga”, das senhoras de 70 anos que educaram os netos a acreditar que “rapaz é rapaz” e que “elas sabem no que se metem”. É este o terreno onde a frase aterrou — um terreno em que o mito da culpabilização da vítima não precisa de ser introduzido, apenas reconfirmado.
Significa também algo mais incómodo: que a mensagem foi transmitida, por uma mulher de enorme autoridade mediática, à geração feminina que mais contacto directo tem com as netas adolescentes e com as conversas de cozinha em que se decide, em silêncio, como é que uma família reage quando a rapariga chega a casa a chorar. A televisão que se vê às dez da manhã não é inofensiva. É, em muitas casas portuguesas, a principal fonte de enquadramento moral do dia.
Por que é que esteve mal – e por que é que a desculpa não colhe
Há várias maneiras de errar em televisão. Há o lapso, o cansaço, a frase infeliz atirada sem malícia, e há, finalmente, o deslize enquadrado numa cultura. O problema das palavras de Cristina Ferreira não é terem saído atabalhoadas. O problema é a gramática moral que as sustenta: a ideia de que o não da vítima pode, em certas circunstâncias, ser difícil de ouvir; que a excitação masculina, quando multiplicada por quatro, configura uma espécie de atenuante sociológico; que cabe ao público discutir se aquele grupo conseguiria entender a recusa – e não se a recusa foi, ela própria, inequívoca.
Este enquadramento é o ABC da cultura da desculpabilização. Desloca o eixo da pergunta de “por que é que estes rapazes violaram” para “como é que estes rapazes poderiam ter percebido que estavam a violar”, como se a violência sexual fosse um mal-entendido comunicacional em vez de um crime. E fá-lo às dez da manhã, entre a receita do dia e a rubrica do horóscopo, diante da audiência que, no quadro demográfico da televisão portuguesa, menos ferramentas tem para reagir criticamente àquilo que ouve: porque a maioria dessa audiência não cresceu a ler teoria do consentimento, cresceu a ouvir que “há cada uma…”.
Pior: não é a primeira vez. A polémica não é novidade na carreira de Cristina Ferreira. Basta recuar alguns meses, ao episódio em que, falando de uma vítima de femicídio, verbalizou a expressão “pôs-se a jeito”, e ao outro em que se riu enquanto Cláudio Ramos explicava que a mulher em causa tinha morrido. A ERC considerou, na altura, que as suas palavras deslocavam a responsabilidade para a vítima e desresponsabilizavam o agressor. Houve processo de contra-ordenação contra a TVI. Não houve, da apresentadora, mea culpa. Houve sempre a mesma coreografia: comentário polémico, silêncio, declaração em que tudo se devia a descontextualização, ponto final unilateral, promessa de não voltar ao tema. Há um padrão. E os padrões, em televisão, não são acidentes – são estilo.
O argumento do “não é só ela” – que é verdadeiro, mas insuficiente


Dito isto, seria desonesto parar por aqui. Porque a indignação que se abateu esta semana sobre Cristina Ferreira, por mais legítima que seja, convive mal com o silêncio ensurdecedor de uma sociedade que, em paralelo, tolera – e lucra com – a desumanização das mulheres a uma escala que nenhum programa de televisão alcança.
O caso de Loures, recorde-se, não é um caso sobre televisão. É um caso sobre TikTok. Trinta e duas mil pessoas viram o vídeo de uma rapariga de 16 anos a ser violada numa arrecadação. Trinta e duas mil. Nenhuma denunciou. O crime só chegou às autoridades porque o Hospital Beatriz Ângelo reparou nas marcas no corpo da vítima. Os agressores ganharam seguidores com o episódio, como se a violação fosse branding. A plataforma, segundo reportagem da CNN Portugal, apresenta “défices” no controlo de conteúdo sexual. E o algoritmo continua a distribuir, a todas as horas, um fluxo constante de corpos femininos fragmentados, de raparigas menores em “dancinhas” coreografadas para o olhar adulto, de piadas de violação embrulhadas em som viral, de comentários que ridicularizam vítimas e glorificam agressores.
A literatura académica não deixa margem para dúvida: o TikTok, tal como o Instagram, faz da hipersexualização de meninas um motor de viralização e, portanto, um modelo de negócio. Em Portugal, em Espanha, no Brasil, em França — é a mesma engrenagem. A mesma economia da atenção. A mesma mensagem devolvida, no feed, a quem ainda está a formar-se: o valor do teu corpo mede-se em visualizações.
Há, portanto, uma hipocrisia de fundo neste escândalo. A mesma opinião pública que hoje, e com razão, exige responsabilização de Cristina Ferreira é, em larga medida, a opinião pública que ontem partilhou o vídeo dos quatro de Loures sem se inquietar, que consome reality shows em que a violência doméstica é servida como entertainment, que se diverte com memes sobre “mulheres mal comidas”, e que deixa as filhas de 11 anos com conta aberta numa rede social que lhes devolve, a cada scroll, a mensagem de que servem para ser olhadas. A indignação selectiva — a que só se lembra do problema quando o problema tem rosto televisivo e apelido conhecido — é uma forma de auto-absolvição colectiva. Ataca-se a embaixadora, mantém-se o território.
Vale também perguntar quantos comentadores masculinos, em quantos programas desportivos, em quantas bancadas de opinião política, em quantos podcasts de boa figura, disseram, dizem e continuarão a dizer coisas análogas — ou piores — sem nunca verem o seu nome gravado em 3300 queixas à ERC. A misoginia, quando sai de boca de mulher, tem direito a manchete. Quando sai de boca de homem, chama-se “opinião polémica” e ganha convite para a semana seguinte.
A responsabilidade acrescida de quem ocupa aquele ecrã
Feita a contextualização, a conversa tem de regressar ao ponto. Aceitar que a sociedade é hipócrita não equivale a ilibar Cristina Ferreira. Pelo contrário: torna a sua responsabilidade ainda maior.
Cristina Ferreira não é uma utilizadora anónima do TikTok. Não é uma adolescente a replicar os vícios do seu tempo. É, em Portugal, uma das figuras com maior impacto mediático das últimas duas décadas. É directora de Entretenimento e Ficção do canal onde trabalha, é accionista desse canal, é escritora, é empresária, é produtora de conteúdo que dita tendência. Tem o microfone aberto todos os dias úteis, das dez da manhã em diante, na faixa horária que entra na casa das mulheres mais velhas do país — e que, precisamente por ser vista por essa audiência, não admite a leveza que admitiria um programa da meia-noite para um público pós-graduado.
Quando Cristina Ferreira pergunta, em directo, se um grupo de homens em “adrenalina” consegue ouvir um “não”, essa pergunta não cai no vazio: cai em cima das adolescentes que esta semana foram pressionadas para um encontro; cai em cima das mulheres que se calaram depois de uma agressão por acharem que o tribunal iria, também ele, questionar o seu não; cai em cima dos rapazes que precisariam de ouvir, de um adulto de referência, que a adrenalina nunca é argumento. E cai, sobretudo, em cima daquela rapariga de 16 anos de Loures. Uma rapariga que já viu o seu ano lectivo perdido, que mudou de escola, que sobreviveu a ser exibida como conteúdo viral, e que agora, a meio do julgamento dos seus agressores, ligou a televisão — ou recebeu um screenshot de alguém — e ouviu a apresentadora mais conhecida do país a fazer, no melhor horário de manhã, a pergunta de que os advogados de defesa iam precisar.
É por isto que o argumento do “foi só uma pergunta” não aguenta o peso. Em sociologia dos média, aprende-se cedo que as perguntas estruturam respostas, e que a pergunta feita em directo a uma psicóloga, diante de uma câmara, não é exercício socrático neutro: é uma forma de legitimar um enquadramento. Cristina Ferreira não é uma comentadora improvisada. É uma profissional com mais de vinte anos de televisão. Sabe exactamente o que faz uma pergunta quando é formulada daquela maneira, naquele contexto, naquele dia, naquele horário. E sabe — porque a ERC já lho disse antes — que essa maneira tem consequências.
Saber isto e repetir o erro não é incompetência. É escolha.
Epílogo que não é epílogo
A polémica vai passar, como todas passam. Cristina Ferreira vai voltar ao ar, vai vender mais livros, mais perfumes, mais bruma íntima. A TVI vai pagar, quando muito, uma coima. As queixas vão prescrever ou arquivar-se. O julgamento dos quatro de Loures prosseguirá à porta fechada e, em algum momento, haverá uma sentença que o país discutirá dois dias antes de a esquecer. O TikTok continuará a servir à hora do recreio vídeos em que meninas de 13 anos aprendem coreografias que não são suas.
Ficará, no entanto, uma pergunta por responder — a única que importa. Não é se Cristina Ferreira errou (errou, sem discussão). Não é se a sociedade portuguesa é hipócrita (é, e há décadas). A pergunta é se somos capazes de segurar as duas coisas ao mesmo tempo: a exigência de que quem tem o microfone aberto às dez da manhã nos principais canais do país assuma a responsabilidade que vem com ele, e a lucidez de saber que o problema não começa nem acaba no estúdio de Queluz de Baixo.
Se ficarmos só com a primeira, faremos mais um linchamento público que pouco altera. Se ficarmos só com a segunda, fingiremos que o poder mediático não existe e que todas as vozes pesam igual. Não pesam. Cristina Ferreira tem um peso próprio — e tem-no precisamente naquele horário, diante daquela audiência, com aquele histórico. É por isso que, quando diz o que disse, nos cabe a todos dizer, com a mesma clareza: esteve mal. Não volte a acontecer.
O julgamento dos quatro arguidos no caso de Loures — com idades entre os 18 e os 21 anos, acusados de violação agravada, 27 crimes de pornografia de menores e quatro de ofensa à integridade física — decorre à porta fechada no Tribunal de Loures.
José Martins – Jornalista














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