ActualOpinião
27 Janeiro, 2026

André Ventura é ou não é uma ameaça à democracia? – Opinião

"A realidade da imprensa não é a mesma realidade em que os portugueses comuns respiram, suam e sobrevivem."

Devo começar este texto com um aviso: isto não é mais um daqueles artigos que a SIC Notícias ou a CNN Portugal despejam nas suas plataformas. Não me chamo Mafalda Anjos, nem Anabela Neves, nem Maria Castelo Branco. Ou seja, isto não será uma dessas peças de opinião cujo único propósito é denegrir André Ventura, escritas com a mão a tremer de ansiedade por aprovação, na esperança de uma palmada nas costas das elites sociais.

Mas aqui está a minha primeira confissão: este parágrafo que acabaram de ler não acrescenta rigorosamente nada ao artigo. Foi escrito apenas para vos mostrar o quão outside eu sou — um pensador intelectual que nada tem a ver com as elites. No entanto, escrevo para um órgão de comunicação social. E confesso: não suporto publicar no Facebook como se fosse um púlpito digno.

Hipocrisia? Talvez. A verdade crua é que sou mais um intelectual armado até aos dentes com teorias académicas, pronto para explicar a realidade ao leitor como se tivesse vivido mil vidas e fosse um sábio cuja opinião se transforma em verdade. A verdade dos jornais, claro. Não a do mundo lá fora.

E é precisamente aqui que mora o problema: a realidade da imprensa não é a mesma realidade em que os portugueses comuns respiram, suam e sobrevivem.

Deixem-me pintar-vos um quadro.

Para o português comum, democracia é isto: sair de casa de manhã, trabalhar oito horas sob luz fluorescente, arrastar-se ao fim da tarde até um café para beber uma cerveja com os dedos ainda a cheirar a trabalho. Ver futebol quando há jogo. Abrir as redes sociais para se indignar com qualquer coisa sobre desigualdade. Meter um like num vídeo do Ventura. Virar-se para o colega e dizer: “Este gajo diz as verdades.” O colega acena, olhos cansados, e responde: “São todos uns gatunos.”

Nesse momento, a televisão do café cospe mais uma frase: “António José Seguro ganhou mais um apoiante de peso. Está em jogo a nossa democracia contra o fascismo.”

No balcão, alguém resmunga sem tirar os olhos da cerveja: “Deviam era olhar para quem não trabalha.”

Mudem de cenário comigo.

Um autocarro empilhado de gente. Corpos comprimidos. Cheiro a suor e a fim de dia. Lá dentro, estudantes — uns a tirar a licenciatura, outros o mestrado, outros ainda presos no secundário. Dois colegas estão de pé, telemóveis nas mãos, a deslizar por vídeos curtos. Aparece Ventura a gritar no Parlamento, as veias do pescoço saltadas: “Para que serve a democracia se não existem oportunidades para os jovens trabalharem? Se não existem casas para morar? Se um jovem leva três anos a estudar e depois não há nada?”

Um dos jovens vira o ecrã para o outro. “Vê este vídeo. Ele tem razão. As casas estão bué caras.”

O outro hesita. “Mas ele é um bocado preconceituoso, não?”

“Talvez. Mas o que ele diz é verdade. Estou farta de procurar casa. Tenho uma amiga que tirou o mestrado e está a trabalhar no supermercado.”

No supermercado uma jovem sai de um turno de oito horas. De rastos. Farta de ouvir insultos. Farta de ver desprezo nos olhos das pessoas que passam por ela como se fosse invisível. Durante o dia, ouviu uma cliente dizer à filha — em voz alta o suficiente para que ela ouvisse: “Vês, filha? Tantos jovens licenciados e acabam aqui.”

A jovem entra no carro. Uma lágrima escorre-lhe pelo rosto. Só uma. Pensa: foi para isto que estudei? Valeu a pena?

Liga o rádio. Uma voz pomposa atravessa os altifalantes: “Todos nós temos o dever de defender a democracia contra tiques autoritários. Ventura quer mudar a Constituição. Não podemos permitir. Um homem que quer matar a democracia.”

Ela muda de estação.

Chega a casa exausta. A mãe pergunta-lhe: “Mais um dia de trabalho, filha?” “Sim, mãe. Sabes como é.”

A família senta-se à mesa. A televisão ligada na TVI ou na SIC — tanto faz, é sempre o mesmo filme. Aparece Miguel Sousa Tavares, com aquele ar velho, cansado, de quem já foi ultrapassado pelos tempos mas ainda não recebeu o memorando. Diz ele, com a solenidade de quem profere verdades eternas: “José Alberto Carvalho, a maior ameaça à democracia são os populismos. Este discurso xenófobo, racista… E digo-te mais: estas novas gerações têm uma responsabilidade acrescida na hora do voto. Temos que proteger a democracia.”

Segue uma reportagem sobre os direitos dos migrantes.

A jovem, por baixo da mesa, olha para o smartphone. Mais um vídeo de quinze segundos: “Os portugueses primeiro. Os migrantes depois.”

Todos estes casos, caro leitor, são cenários fictícios. Pintei-os para vos mostrar o abismo — o quanto a imprensa vive desfasada da realidade do português comum. Vive mergulhada na sua bolha de cristal, onde a maior ameaça à democracia não é a precariedade laboral, não são os custos da habitação que estrangulam gerações inteiras, não é a falta de oportunidades para os jovens, não é a desigualdade salarial que engorda uns e esmaga outros.

Não. As preocupações dos jornalistas e comentadores são o Ventura. O Chega. Os direitos dos migrantes. O SNS. A guerra na Ucrânia. Não se discute mais nada. Apenas os temas que agradam às elites sociais. Os temas que ficam bem em jantares de Lisboa.

Então, pergunto-vos: qual é a verdadeira ameaça à democracia?

Será André Ventura, com o seu discurso populista e demagogo — mas que, doa a quem doer, vai ao encontro das preocupações reais das pessoas?

Ou serão os média, que vivem numa realidade onde só existe Lisboa, Porto, e preocupações que não são as dos cidadãos, mas sim as do status quo?

Claro, o leitor deve questionar-se: “Mas José, você tirou jornalismo! Devia defender os jornalistas!” A verdade, caro leitor, é que o meu percurso de vida permite-me olhar para os dois lados. Para essas duas realidades. E ver o quão brutalmente afastadas estão.

Com isto, não estou a dizer que Ventura não tem um discurso perigoso. Claro que tem. Claro que a maioria da bancada do Chega é composta por racistas e xenófobos. Mas o problema não é o Chega nem André Ventura.

Eles são os sintomas.

São o resultado de uma democracia que não está de boa saúde. Porque democracia não é só liberdade de expressão. É também oferecer qualidade de vida. É dar às pessoas razões para acreditar no sistema.

Diria que a maior ameaça à democracia é outra. É a pobreza que corrói. A desigualdade que divide. A desilusão dos mais velhos que não conseguem dar uma vida diferente aos filhos. A desilusão dos filhos que não encontram oportunidades dignas de trabalho.

Será a raiva — essa raiva surda e crescente — que irá destruir a democracia. Com a ajuda de Ventura e do seu discurso sedutor. Com a ajuda da imprensa e da sua arrogância intelectual. Com a ajuda dos partidos tradicionais que vivem há décadas de alegados esquemas e vícios.

E é aqui, caro leitor, que nos devemos olhar ao espelho. Todos nós.

Porque a verdade — a verdade que ninguém quer ouvir — é que a democracia não morre nas mãos de um único homem. Morre nas nossas mãos. Nas mãos de todos nós que assistimos, comentamos e nada fazemos. Que nos indignamos no sofá e adormecemos conformados. Que partilhamos vídeos de raiva mas não temos coragem de exigir mudança.

A democracia morre quando os jornalistas preferem o conforto das suas bolhas ao desconforto de ouvir o povo. Morre quando os políticos servem quem os financia em vez de quem os elege. Morre quando os jovens deixam de acreditar que o seu voto pode mudar alguma coisa. Morre quando a esperança se transforma em cinismo — e o cinismo em indiferença.

Mas também renasce. Renasce cada vez que alguém se recusa a aceitar que “é assim e sempre foi”. Renasce cada vez que um jovem, apesar de tudo, decide lutar por um país melhor. Renasce cada vez que exigimos mais — de nós próprios, dos nossos líderes, da nossa imprensa.

A pergunta não é se André Ventura é uma ameaça à democracia. A pergunta é: o que estamos nós dispostos a fazer para a salvar?

Porque no fim, caro leitor, a democracia não é um edifício que alguém constrói por nós. É uma casa que temos de erguer todos os dias, tijolo a tijolo, com as nossas escolhas, com a nossa voz, com a nossa recusa em desistir.

E se não o fizermos nós, alguém o fará por nós.

E esse alguém pode não ter as nossas melhores intenções em mente.

A história está a observar-nos. Os nossos filhos irão julgar-nos. E quando perguntarem “o que fizeste quando a democracia precisava de ti?” — que resposta teremos para dar?

O tempo de apontar dedos acabou.

O tempo de agir é agora.

E agora caro leitor sinto-me o Rodrigo Guedes Carvalho pela conclusão moralista que adotei, como se fosse um pensante intelectual, um sábio  que acabou de descobrir a salvação da democracia, um D. Sebastião que chegou no seu cavalo branco para salvar as pessoas através de palavras, como um poeta, quando na verdade, sou apenas mais um cronistas do sul do país a tentar impressionar as tais elites que tanto critiquei, na esperança que uma Anabela Neves leia o artigo e me contacte. 

José Martins – Jornalista

About this author

0 comments

There are no comments for this post yet.

Be the first to comment. Click here.