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Miguel AntunesOpinião
11 Outubro, 2017

A sinagoga medieval de Elvas

Aquilo que provavelmente foi a maior sinagoga conhecida em Portugal, foi também durante tempos o açougue da cidade (...) provocando uma afronta direta aos judeus.

Recentemente foi inaugurada a primeira fase da adaptação da Casa da História Judaica de Elvas, num edifício que todos os locais conhecem como o Açougue.

A história dos judeus é também a história de Elvas, sendo essa uma das razões pela qual se põe em valor a influência sefardi na sociedade medieval elvense, com base numa tese da saudosa drª Carmen Balesteros, que identificou este edifício como possível sinagoga, bem como muitas outras marcas judaicas na malha urbana do centro histórico.

Os judeus terão habitado Elvas desde a época islâmica, contudo o mais antigo testemunho da existência de uma comunidade judaica em Elvas é também uma preciosidade da literatura portuguesa. As cantigas de amor de um judeu chamado Vidal da vila de Elvas, datadas entre 1320 e 1340, são a evidência da existência dessa primitiva comunidade, que teria a sua judiaria na zona correspondente às ruas hoje conhecidas como dos Açougues, S. João de Olivença, praça da República, rua Isabel Maria Picão e a rua dos Sapateiros, à época denominada rua da Judiaria. No século XIV a comunidade amplia-se à zona da Alcáçova, em torno da atual rua das Beatas. É aqui que se vão fixar os judeus refugiados que tinham sido expulsos dos reinos espanhóis em 1492, tornando Elvas numa das maiores comunidades sefarditas do reino.

Mas como se transformou uma antiga sinagoga num açougue? Aquilo que provavelmente foi a maior sinagoga conhecida em Portugal, foi também durante tempos o açougue da cidade, assim transformada sob a influência da Inquisição no seu afã de apagar a memória do local, provocando uma afronta direta aos judeus, favorecendo a venda de carne de porco num antigo local de culto sefardi contrariando assim o estipulado no Antigo Testamento que proíbe expressamente o consumo desta carne.

Em 1497, com a expulsão ordenada por D. Manuel I e a possibilidade da sua conversão ao cristianismo e aos batismos forçados dos judeus mais resistentes, cria-se dessa forma os denominados novos-cristãos e os cripto-judeus que seguiam professando sua fé. As antigas casas de judeus, agora novos-cristãos, foram cristianizadas, apagando a existência das mezuzah (especie de relicário com uma transcrição da Torah colocado no umbral direito das casas judias) substituindo-as por marcas cruciformes apagando a memória de ali terem vivido judeus.

Em Elvas muitos desses cristãos-novos, herdeiros de ricos comerciantes, físicos e outros profissionais, hoje ditos liberais, tornaram-se figuras importantes da história lusa, identificando alguns historiadores a Garcia d’Orta como um deles.

Depois de nos últimos anos ter sido depósito da coleção do museu de arte contemporânea local e anterior armazém da divisão de limpeza urbana, chegou o momento de incorporar a antiga sinagoga no circuito dos visitantes do nosso centro histórico, vai certamente enriquecer a oferta turística local, atrair o importante fluxo de turistas que procuram este segmento, mas sobretudo levar à dinamização e valorização do eixo entre a praça da República e o cemitério dos Ingleses.

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