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Miguel AntunesOpinião
8 Julho, 2017

Os sabores da memória

Trincar aqueles morangos fez-me regressar ao tempo em que as coisas sabiam a terra, a verdade, à casa de minha mãe e à minha infância.

Quando foi a última vez que comes-te um tomate com aquele sabor da tua infância ou trincas-te um morango que tivesse aquele sabor a pastilha elástica de morango?

Posso ter saudades de uma Elvas com ruas repletas de visitantes em busca de lojas, que hoje chamariamos de proximidade, de artesãos que te reparavam ou elaboravam peças a medida,  ou ainda daqueles que no centro da cidade vinham resolver afazeres da vida nas antigas repartições públicas. Mas aquilo que mais falta me faz no dia a dia é o paladar do antigamente.

Há uns anos, de visita a uma quinta de pessoa amiga, voltei a reencontrar alguns desses sabores que, ainda que presentes na memória, julgava jamais voltaria a degustar. Entrar naquele pomar recheado de odores de outrora foi algo extasiante. O aroma de morangos invadia o ambiente, rompendo inclusivé o cheiro a porco, que passados uns meses se transformariam num churrasco em torno de uma salada de tomate.

“António, vou ter de te roubar um par de morangos!” Sem possibilitar uma resposta, lancei-me e colhi-os. Dirigindo-me ao tanque para refrescá-los e lavá-los sou interceptado: “Onde vais? Podes come-los assim, são biológicos. Não têm pesticidas.”

Trincar aqueles morangos fez-me regressar ao tempo em que as coisas sabiam a terra, a verdade, à casa de minha mãe e à minha infância.

Sorte de quem vivendo no bairro da Boa-Fé, nos seus primeiros anos de vida, podia apanhar na bicicleta e, rompendo a barreira do som, sair em busca das hortas por entre caminhos e veredas ao encontro de recantos escondidos e “secretos” onde passar o estio alentejano. Uma figueira e um tanque de rega serviam de piscina, sombra e lanche a um grupo de crianças que a mais não ousavam que passar uma tarde emulando os seus heróis da televisão.

Sorte de quem teve por vizinho alguém que, para enfrentar os rigores da vida aliava ao seu oficio diário o prazer/obrigação do cultivo da horta familiar, possibilitando-nos ter produtos de frescura impensável no mundo de hoje. Entrar na casa do senhor Chico e ver montanhas de melões e melancias aromatizando as estancias era um luxo, que hoje deixa saudades.

Sorte de quem podia a diário ver passar uma carroça carregada de tomates, pimentos, pêros, cenouras, batatas e beldroegas…

Sorte é encontrar atualmente alimentos frescos que tenham aquele sabor que armazenámos na memória, para identificar se algum dia voltarmos a tropeçar em pêros, morangos, laranjas de sangue e beldroegas da nossa infância.

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