Luís BonixeOpinião
22 Junho, 2018

Macedo

Macedo é um símbolo de uma geração que fez a diferença pela voz.

Mesmo sabendo que a rádio tem de acompanhar a evolução tecnológica e adaptar-se às novas tecnologias, há momentos em que deveria recusar-se a usar vídeos. Há momentos em que o que queremos ouvir é mesmo só o som. Abstrairmo-nos do lado visual da vida e deixarmo-nos levar pelas emoções do som e da voz que nos conduz e nos transporta para imaginários.

A escuta do diferente tornou-se para o ouvinte de rádio o seu principal desafio. E a voz tem aqui um papel decisivo. É ela o cimento que junta os outros elementos que compõem uma emissão de rádio: as músicas, os sons, os silêncios. É ela que distingue os momentos do dia na rádio. A manhã, a tarde, a noite ou a madrugada. No entanto, a adoção de modelos de programação pré-definidos tem conduzido a rádio a playlists, a timbres de voz e modos de falar muito semelhantes. A distinção tem de ser feita pelo detalhe, pela subtileza e pelo risco de ser diferente.

Pois, é justamente nesta altura de uniformização da maior parte da programação radiofónica, que uma das vozes que fazem a diferença deixa os microfones da Antena 1. António Macedo acordou-nos durante década e meia ao que se juntam os anos que já levava de TSF. Macedo é um símbolo de uma geração que fez a diferença pela voz.

A voz (e o estilo) de António Macedo é daquelas inconfundíveis que nos faz ter a certeza que a rádio é um meio de comunicação com uma imensidão de universos. Na voz de Macedo cabem tantos lugares e tantas memórias. E já há tão poucas vozes assim. Porque com ele também os Filipe Barros ou os Sena Santos já não se deixam ouvir, pelo menos com a mesma frequência de outros tempos. Há ainda o Fernando Alves!

A voz de Macedo chamou-nos a escutá-lo porque com ele era tão mais fácil ouvir a rádio. Era naquele estilo de voz arrastada que encontrávamos motivação para começar o dia. Porque transmitia energia. Uma voz cheia de alma, de energia. Um carimbo da emissora, que cunhou a própria rádio e que sinalizava o início do dia. Não ter o Macedo logo pela manhã, é estranho.

Nota-se a falta. E que melhor elogio se pode fazer a alguém, senão dizer-lhe que nos faz falta?

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