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ActualCarlos PepêOpinião
27 Março, 2017

“Escola! Vende-se”

A educação é o alicerce principal de qualquer sociedade, no entanto a destruição da dignidade da escola é um tema quente! Estamos em tempos difíceis para a escola, a quem lhe pedimos que acompanhe a sociedade atual. É no entanto desafiante para pedagogos, professores, educadores, dirigentes e governantes, edificar um modelo consistente e credível, tal é o complexo sistema social em que nos encontramos. Para toda a mudança são necessárias bases sólidas nas quais se edificam os pressupostos que irão fortificar a estrutura. Desculpem tantos rodeios, mas apenas pretendo que fique claro que mudar a educação em Portugal é uma tarefa árdua e que muitos negligenciam, uma vez que este é um daqueles temas sobre os quais toda a gente comenta. Acredito que será necessária uma união coletiva em redor da educação. A história da educação em Portugal fala por si só. São muitos os casos de projetos copiados de outros países e colados nas nossas escolas sem a devida adequação social, física, cultural, pedagógica, metodológica e claro temporal a que a educação nos habituou, sabendo todos que a velocidade da evolução social e suas necessidades nos coloca sempre um passo a trás. Nos últimos anos vemos as escolas debaixo de fogo permanente (umas vezes por motivos claros e de evidente desnorte, outras nem por isso), facto que veio atirar o valor da escola para níveis nunca vistos. A ausência dum verdadeiro compromisso das famílias em relação à escola e à figura da docência, marginaliza e relega o papel fundamental da escola enquanto alicerce para a cidadania, para a literacia e para a criação duma nação mais forte, mais apta e coesa. Nem todas as famílias olham para a educação da mesma forma. Temos diversos perfis para as definir, da mesma forma que encontramos diversos perfis na docência, bem como na gestão escolar.

Nenhum destes pressupostos deve ser motivo de destruição da importância da escola e da formação. Penso que na realidade o sentimento que domina na escola publica é de alguma suspeição de parte a parte. Encontramos hoje, excelentes escolas publicas, que possuem projetos educativos extraordinários, com corpos docentes motivados e famílias envolvidas na vida escolar dos filhos, que reforçam o poder e validade da escola de norte a sul. Também ao nível das infraestruturas o panorama mudou. São muitos os casos dum parque escolar renovado, com equipamento de elevada qualidade e recursos modernos, em alguns casos superiores aos que vi em escolas de referência em diversos países da Europa dita desenvolvida.

Não direi que somos um exemplo em educação pública (mesmo após os brilhantes resultados nos estudos europeus comparativos alcançados, que não podem ser vistos isoladamente), pois ainda existem casos gritantes de desigualdade de oportunidades, de qualidade na docência, nas infraestruturas obsoletas e nas relações entre a escola e a comunidade.

Devido à importância (que mesmo assim) damos à escola na nossa sociedade, são dezenas as solicitações que chegam à gestão, coordenação e administração escolar nas mais diversas áreas. São os projetos de carater local, muitos deles dirigidos pelos municípios, associações locais, associações de pais, entre outras, que valorizam a dimensão extracurricular e que potenciam a aproximação entre a escola e a comunidade. Estes projetos pretendem na maioria dos casos valorizar as suas comunidades e abordam temáticas atuais, locais e que são consideradas relevantes para promoção da cidadania, da literacia e formação dos alunos. São temas recorrentes, o bullying, as atividades culturais, de leitura, de caracter científico e ambiental, desportivo, empreendedorismo,  ou mesmo de formação para pais e encarregados de educação.

Encontramos depois ofertas e solicitações direcionadas pelo ministério da educação às quais as escolas recorrem para trabalhar temáticas que consideram relevantes, sem no entanto envolver na maioria dos casos gastos ao erário publico. São caso o programa nacional escolas solidárias da Fundação EDP, o programa Eco-escolas promovido pela ABAE (associação Bandeira Azul da Europa), os projetos da Fundação Elídio Pinho (promoção do espírito científico), a rede nacional de bibliotecas escolares, os desafios matemáticos, literários e o desporto escolar. Muitos outros haverá como as novas e atuais temáticas do empreendedorismo, da cidadania, da robótica, das tecnologias da informação, …

Destaco, que todas elas são potenciadoras de mudança e potenciam a descoberta de vocações e de talentos, bem como treinam competências sociais fundamentais para os nossos tempos.

O problema é quando temos um modelo escolar baseado num currículo único, pouco flexível e desperto para a transdisciplinaridade, para o treino de competências sociais e para os currículos individuais, pedir mais à escola torna-se em muitos casos um desespero. Seria ideal que a autonomia escolar cria-se espaço à escolha das actividades que melhor servem os interesses das suas comunidades, que melhor se adaptem às suas necessidades e que promovam o sucesso escolar dos seus alunos.

Dito isto, sinto-me capaz de abordar o tema desta crónica. A escola pública está a ser vendida a interesses diversos, que muitas vezes se apoderam de espaços vazios deixados pela confusão do sistema versus as necessidades dos alunos e famílias.

Vamos ver um estudo de caso: Os alunos do Centro Escolar Rui Nabeiro e da Escola Secundária de Campo Maior, receberam um inquérito para responderem sobre o apoio familiar prestado ao nível escolar em casa. Esse mesmo inquérito foi dirigido para as famílias pela escola, não existindo nenhuma referência aos fins para que o mesmo viria a ser utilizado. Após as respostas, e passadas algumas semanas, os familiares dos alunos do 6º e 7º ano de Campo Maior, foram contatados para se deslocarem à Escola Secundária D. Sancho em Elvas com os seus filhos, afim de ser apresentado presencialmente o resultado do estudo em causa. Dado tratar-se dum estudo enviado pela escola e ser na escola (mesmo sendo em Elvas) a respetiva apresentação, levou alguns pais a deslocarem-se em horários marcados para o efeito no sábado e domingo 11 e 12 de Março.

Se tudo isto poderia parecer um magnifico exemplo de responsabilidade e preocupação da escola para com os seus alunos, engane-se o leitor, uma vez que ao chegarem ao local os pais e alunos foram inquiridos pelos representantes duma empresa privada sobre o interesse em comprar um serviço de apoio com de métodos de estudo e inglês. No decorrer das entrevistas os pais com os seus filhos foram confrontados com os dados dos seus inquéritos entregues na escola e trabalhados pelos técnicos da empresa em questão que ofereciam um serviço sempre de encontro à melhoria das competências escolares e linguísticas dos seus filhos. O preço em causa era de 50 euros de entrada com uma mensalidade de 69 euros para sessões a decorrer aos sábados na Escola Secundária D. Sancho em Elvas. O denominado “Programa L.E.D.” é oferecido por uma empresa do norte do pais “Rotinaestratégica” sobre a qual não encontrei grandes referências nem menção a nenhum protocolo estabelecido com o Ministério da Educação para esta prestação de serviços direta às famílias em espaços escolares públicos. Segundo o que me foi possível apurar o mesmo método de promoção e venda foi levado a cabo no ano anterior em Elvas e este ano voltou a repetir-se na cidade e também na escola de Vila Boim.

Não é aceitável que a escola se deixe manipular por interesses privados para venderem aos seus próprios alunos programas que deveria ser a própria escola a promover (seguindo o princípio da escola para todos, da igualdade de oportunidades e do ensino livre e gratuito).

Percebo que os pais e alunos só aceitam se quiserem, mas não deixa de ser estranho que todos os dados privados fornecidos à luz dum estudo enviado pela escola, sejam usados como arma.

A escola pública deverá pensar a oferta mais adequada aos seus alunos e em projeto educativo e pedagógico delinear ofertas gratuitas, letivas e extra-curriculares baseadas nas necessidades para o sucesso educativo da comunidade, seguindo o princípio da autonomia escolar. Caso a escola entenda, poderá certamente disponibilizar verbas no âmbito de determinados programas para formadores, empresas ou instituições promoverem sessões livres e para todo o universo da escola, sem que no entanto as famílias sejam obrigadas a pagar ou a serem limitadas ao acesso a dinâmicas pelo seu estatuto financeiro.

São muitos os casos de pessoas, empresas e instituições contratadas por escolas que prestam serviços na área da psicologia, da leitura e animação, da oferta científica, artística, entre outras, mas sempre promovendo o princípio do acesso livre de toda a comunidade sem custos, ficando a escola responsável pelos mesmos caso se considere e se escolham estas áreas como prioritárias no complemento da oferta da escola.

Considero um excelente exemplo de como, hoje, as escolas estão à venda e colocam os seus alunos como mercadorias para quem quer vender serviços dentro de escolas publicas com recursos públicos e recorrendo a dados recolhidos via escola publica. A escola publica pode adquirir serviços educativos especializados, mas não é digno e eticamente correto que disponibilizem dados pessoas a empresas privadas para induzir os pais a comprar um serviço.

A escola merece ser dignificada, os docentes merecem ter estabilidade, os recursos que são de todos nós devem ser acautelados e a estratégia para cada comunidade adequada às necessidades e desafios que se nos colocam, sempre na procura do sucesso escolar e da formação pessoal e social das nossas comunidades. Devemos todos lutar pela dignidade da escola onde todos nós crescemos.

 

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