Luís BonixeOpinião
20 Abril, 2018

De Cuba à Arábia

É bom não tomarmos cegamente esta ideologia do digital, apesar das suas virtudes, como um espaço de liberdade em estado puro, no qual todos aparentam ter voz.

A notícia da TSF é perturbadora. O governo da Arábia Saudita acaba de autorizar a abertura de salas de cinema, depois de 35 anos. Perturba, porque nos leva a pensar como é possível um povo ter ficado privado durante três décadas e meia de “O Carteiro de Pablo Neruda”. De Tom Hanks e Jack Nicholson. De Mary Streep e Júlia Roberts?!

Mas, a notícia tranquiliza-nos. Apesar da proibição, dois terços dos sauditas afirmaram recorrer à Internet para ver filmes, pelo menos um por semana, de acordo com uma sondagem realizada em 2014. Ou seja, na prática, a medida proibitiva, motivada por questões políticas e religiosas, de nada passou a valer quando os sauditas “descobriam” a Internet.

Do outro lado do mundo, pela primeira vez desde a Revolução Cubana, há em Cuba um presidente que não se chama Castro. Apesar de Miguel Díaz-Canel, tal como se esperava, ter garantido que vai dar continuidade à Revolução Cubana, o novo presidente fala também na Era Digital. Na senda dos tímidos passos dados por Raúl, Díaz-Canel é um defensor do acesso à Internet.

Num e noutro caso, o acesso à Internet terá a suas restrições, mas deixa clara esta ideia de uma ideologia do digital que parece sobrepor-se a credos e políticas, sejam elas mais liberais ou conservadoras. Mais à esquerda ou mais à direita.

Esta ideologia do digital não é necessariamente boa ou má. Não é em si mesma promotora de sistemas mais justos e democráticos ou geradora de regimes ditatoriais e castradores.

Mas, não o sendo (nem uma coisa nem outra) a ideologia do digital é o ar que respiramos nos tempos que correm e, como tal, há que aprender a viver com ele. A ideologia do digital enforma as nossas práticas e decisões e tem consequências no nosso quotidiano.

Mas, sendo isso verdade, convém não nos desprendermos em demasia da realidade física, dos afetos e dos valores tradicionais. Convém ter a consciência de que, se é verdade que “Pensar Digital” nos pode ajudar a comunicar à escala global, também é verdade que é no território físico, e não no virtual, que os processos de decisão têm lugar.

É bom não tomarmos cegamente esta ideologia do digital, apesar das suas virtudes, como um espaço de liberdade em estado puro, no qual todos aparentam ter voz. É útil não olharmos para esta arena digital como uma ágora perfeita na qual o confronto é sempre gerador de conhecimento. E é bom olharmos para o recente caso que envolve o Facebook e percebermos as consequências de livremente abdicarmos da nossa privacidade, cedendo dados e informações pessoais a todos quantos nos acenam da rua digital.

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