Carlos PepêOpinião
13 Dezembro, 2016

“Metamorfose”

O Mês de dezembro, não deve carregar consigo todos os karmas e responsabilidades daquilo que não damos uns aos outros ao longo de todo o ano!

Estamos em dezembro mês de sentimentalismo, amor ao próximo e compaixão! Não será demais pedir tudo isto apenas no último mês do ano?…

Na longa história da Humanidade fomos capazes de percorrer caminhos incríveis de evolução e superação. A natureza fascina-nos, guia-nos e ensina-nos. O medo, o respeito e o fascínio pelos elementos naturais são sentimentos que nos levaram a criar hipóteses (umas mais racionais que outras) e a procurar respostas para perguntas eternas.

Hoje, consideramo-nos seres tecnológicos, mas este percurso criativo deve-se fundamentalmente à linha consecutiva e sistemática de poder criativo e dominador do Homem. O Homem separou-se claramente de todos os outros animais ao seguir duas vias nunca antes exploradas, a tecnologia e a religião. Para conforto da mente, do espírito e do sentido de comunidade, o Homem recorria a explicações divinas como o poder da natureza e dos elementos. Nesta viagem no tempo, rápida, mas empolgante, o Homem fortaleceu o seu espírito comunitário, recriou a fé de diversas formas e procurou explicações espirituais cada vez mais ricas e profundas. Com a expansão da Humanidade e com vivências tão díspares, as tradições e rituais foram divergindo, mas sempre na tentativa de reconfortar o espírito. Por outro lado (o racional) a evolução tecnológica continuava. A nossa capacidade de análise do real envolvente foi aumentando e na Grécia Antiga eramos pensadores, filósofos e teólogos. A capacidade de argumentação, de criar hipóteses e de pensar sobre os fenómenos naturais teve nesta fase uma importância incrível na divisão das duas visões do mundo que aqui trago hoje.

A ciência e a religião caminham juntas e cruzam-se ao longo da história da Humanidade e ambas procuram responder às grandes perguntas da existência humana e da vida. A vontade de nos aproximarmos dos deuses levou-nos a criar templos por todo o mundo. Do politeísmo ao monoteísmo são muitas as crenças religiosas que nos ajudam a sobreviver acreditando em forças superiores ao simples e humilde Humano. Mas mesmo as comunidades mais crentes do planeta nunca deixaram de tentar a sua sorte no domínio da ciência. Também a vertente espiritual teve os seus percursos e evolução. A adoração das forças da natureza, dos astros e de animais mitológicos, deu espaço a crenças politeístas como a Grega e Romana (até ao Imperador Constantino). Noutros pontos do globo outros deuses iluminam o espírito dos Homens. O Budismo, o Hinduísmo ou o Islão são exemplos da diversidade religiosa do Mundo. A religião cristã marcou no mundo ocidental a grande viragem religiosa para o monoteísmo e abriu portas a uma nova aurora de esperança para a Humanidade.

Esta diversidade de escolhas para o racional (associado ao crescimento da corrente e espirito científico) e o espiritual (representado pelas crenças e religiões) faz parte integrante da história da Humanidade. Foram muitos os cientistas que deixaram o seu lado espiritual livre e nunca o rejeitaram. Charles Darwin, Albert Einstein, entre muitos outros, respeitam os limites da ciência e da religião. Hoje, olhando a ambos caminhos, percebemos que são ambíguos, ambos trazem esperança e ambos matam! Sim, ambos destroem quando são tirados dos limites da racionalidade, tornando-se perigosos.

As guerras acontecem por dois motivos diferentes: Poder e Fé. O poder é o instinto animal de dominância que impera nas lutas pelo território, pela sobrevivência.

Cresceram assim Impérios, civilizações e nações que se impuseram no tempo e no espaço. Continuamos hoje a encontrar lutas de poder que na maioria dos casos estão relacionadas com interesses económicos, recursos naturais e jogos de poder (uma visão menos tribal). No caso da Fé, são muitos os pontos de conflito no passado e no presente! A expansão do cristianismo é um dos exemplos de como a fé cristã mesmo mediante a força (na idade média) conquistou o seu espaço, ou nos nossos dias o caso do Islão radical que coloca todo o Mundo em sobressalto.

A ciência é aliada do poder tornando-se perigosa. São normalmente guerras silenciosas, que não damos por elas, mas que nos entram no quotidiano destruindo a nossa liberdade. A criação de armas biológicas, de guerras químicas e super-bombas com tecnologia de ponta são exemplos da ciência que mata. Quando posta ao serviço dos grandes interesses económicos e políticos a ciência manipulada é destrutiva.

A economia e as guerras financeiras estão a elevar a discussão entre o poder das nações (vejamos o caso do Brexit ou Trump). A dicotomia ciência e religião é uma das grandes construções da Humanidade. Nelas nos recolhemos nas horas de medo, de ansiedade e nelas confiamos os nossos segredos. Delas dependemos para o bem-estar físico, mental e social e sem elas o Mundo não seria igual. Como dizia um grande cientista: “Se existe Deus? Até que a ciência não prove que não existe a possibilidade de que existe está em aberto… prefiro acreditar que sim.”

Este Natal será melhor se lermos o percurso que a Humanidade traçou, para o bem e para o mal. Aprender na diversidade, no respeito pela diferença, na aceitação das crenças e no potencial do conhecimento, da criatividade e da tecnologia (no campo espiritual e racional), ajudará a escolher melhor os caminhos do futuro da Humanidade…

O Mês de dezembro, não deve carregar consigo todos os karmas e responsabilidades daquilo que não damos uns aos outros ao longo de todo o ano! A redenção seria desnecessária num mundo perfeito, mas somos humanos e sofremos metamorfoses permanentes levados pela corrente social e pelos nossos próprios erros e vitórias. Como dizia Sebastião da Gama:

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

 Partimos. Vamos. Somos.

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