Cláudia PachecoOpinião
24 Maio, 2018

O Amor, a Disney e os contos de fadas

Afinal, não sou assim tão pouco romântica, acredito no Amor construído com o dia a dia e com o tempo, acredito no estar, no conhecer.

A propósito do casamento de Henry e Meghan, refletia esta semana sobre o quanto a Disney, enquanto máquina produtora de conteúdos, nos moldou na definição mais padronizada de Amor, tão bem estereotipada na história destes dois protagonistas. Sem desprimor para quem gosta do género (não é o meu caso) muito foi dito e escrito, sobretudo nas redes sociais. De tudo a que tive acesso, retive um post sobre uma analogia de imagens da dita cerimónia e o filme da Cinderella. As minhas amigas (talvez as únicas a ler este meu artigo) já estarão a esta altura com os cabelos em pé a pensar: “Lá vem ela dar cabo do príncipe encantado e do seu cavalo branco!”, e não estão enganadas…

Nada contra os filmes da Disney, os quais considero uma preciosidade, mas entre o meu tempo de criança em que os via apaixonadamente e este, já bastante adulta, em que apaixonadamente os vejo, aconteceu uma coisa interessante: cresci!

Contudo, não é sobre maturidade que vos quero falar (conceito passível de alguma discussão), nem sequer sobre o facto de algumas pessoas que conheço serem mais ou menos crédulas em relação às histórias de contos de fadas. Confesso mesmo que estou cada vez mais convencida de que essa forma de encarar o Amor tem muito mais a ver com a personalidade de cada um do que com a história e a experiência individual e, por isso, para mim, não levanta questões de maior.

O que me move a este propósito é o padrão desse Amor, perpetuado no nosso imaginário, repetido, empolado e amplamente divulgado nas redes sociais. Por isso Bauman me é tão querido quando fala de “amor líquido” traduzido em relações instantâneas, paixões avassaladoras invariavelmente começadas nas redes sociais e por elas terminadas: “tens a certeza que queres bloquear este amigo?”. Entre um momento e outro acreditou-se que se viveria um “felizes para sempre” e, entre os encontros escaldantes que certamente aconteceram, trocaram-se juras de amor eterno que não foi tão eterno assim, mas também qual é o drama? Temos tantos outros amigos no facebook! E ainda bem, digo eu.

A questão que realmente me desconcerta tem a ver com aqueles posts que repetem mantras de casamentos felizes e relações ideias do tipo: “Se o teu companheiro(a) não fizer estas 10 coisas, não é a pessoa ideal para ti”; “Se a tua relação apresenta estes 5 sinais, é preferível seguires o teu caminho” e por aí em diante.

Preocupa-me que se encerre o Amor em coisa alguma que não seja ele próprio, preocupa-me que não se dê espaço para ele ser aquilo que é na sua essência: criativo, preocupa-me que não se entenda que ele se expressa de muitas e variadas formas e que a melhor coisa que podemos fazer é deixá-lo simplesmente acontecer.

Afinal, não sou assim tão pouco romântica, acredito no Amor construído com o dia a dia e com o tempo, acredito no estar, no conhecer.

Uma vida inteira levamos para conhecermos aquele que deve ser o nosso maior amor, nós próprios, e quantas vezes ainda assim nos surpreendemos. E de resto, para quem acredita em Deus como eu, temos O Amor na sua plenitude.

 

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