ActualFernanda SesifredoOpinião
13 Fevereiro, 2018

A Nossa Filha Foi Vítima De Abusos Sexuais

Durante um ano, entre os oito e os nove anos, a nossa menina foi vítima de abusos sexuais nas nossas barbas, na nossa casa.

ESTA CRÓNICA É MUITO DURA, POIS RELATA UMA SITUAÇÃO REAL QUE ACONTECEU A DUAS PESSOAS QUE CONHEÇO E ME AUTORIZARAM A CONTAR A SUA EXPERIÊNCIA DE VIDA ENQUANTO PAIS.

AOS MEUS QUERIDOS AMIGOS, ESTE CASAL COM UMA FORMAÇÃO EXCEPCIONAL, DEVO O MAIOR RESPEITO PELA SUA CORAGEM EM PARTILHAREM COMIGO A SUA HISTÓRIA, SENSIBILIDADE E VERDADEIRA ASSERTIVIDADE EM TRATAREM DE UMA SITUAÇÃO QUE LHES DOERÁ O RESTO DOS SEUS DIAS.

A ELES, A MINHA HOMENAGEM E SINCEROS AGRADECIMENTOS PELA CONFIANÇA QUE DEPOSITARAM EM MIM PARA CONVOSCO PARTILHAR O QUE, INFELIZMENTE, CONTINUA A ACONTECER A MUITOS FILHOS QUE AINDA CONTINUAM EM SILÊNCIO.

A garota mal dormia, mal comia, não sorria.

De um dia para o outro o seu Mundo começou a desabar. Em silêncio, ia dizendo que era maltratada. Era amada e acarinhada dentro do seu núcleo familiar onde imperava a harmonia. Em silêncio ia dizendo que precisava de ajuda. E, silêncio manifestava desordem na sua cabeça. Dizia amiúde que queria morrer mas não dizia porquê. Dizia somente que não sabia porque sentia que queria morrer. Sem motivo aparente, tinha um comportamento agressivo enquanto estava em casa.

Sabíamos que a nossa menina estava perturbada. Não encontrávamos explicação para tal pois a sua vida em contexto social era normal mas na escola entrava em pânico mal passava os portões e pedia encarecidamente que a levássemos de volta para casa, o que aconteceu muitíssimas vezes, tantas quanto a levámos de volta para casa pois não apresentava condições para permanecer numa sala de aula. Esse ano foi um caos e um grande desgaste para nós e para ela.

A nossa menina fazia barbaridades em casa. A nossa menina chorava muito. Nessas ocasiões chegou a partir pratos. Sim, a partir pratos! Escrevia frases autodestrutivas nas paredes e frases acusatórias que a família não a percebia. E, efectivamente, não a percebíamos. Virava as cadeiras, derrubava tudo o que decorava os móveis, esperneava, partia o que podia e chorava, chorava muito. Chorava com raiva, revoltada!

Quando conseguíamos que se acalmasse, afagávamo-la e perguntávamos-lhe o porquê de tanta raiva, da necessidade de proceder daquela forma. E a nossa menina continuava a dizer que não sabia explicar. Dizia sentir muita raiva e queria morrer.

A dada altura tentou o suicídio.

Já há muito e havíamos concluído que a nossa menina precisava de ajuda e que a nossa capacidade para a ajudar nos ultrapassara e, como tal, logo aos primeiros sinais de desordem psicológica procurámos ajuda especializada. Nem a profissional de saúde conseguiu “decifrar” a nossa menina. Teve sempre acompanhamento ao longo da pré-adolescência e adolescência. Seis anos depois do primeiro episódio ainda ninguém a tinha sabido “ler”. Depois de um ano de caos a situação melhorou mas em algumas ocasiões ainda manifestava a raiva e a revolta com atitudes de extrema insolência.

Seis anos depois a nossa menina havia amadurecido mas a ansiedade e pânico que trouxera durante esse tempo não a largavam. A nossa menina “sufocou” e pediu para falar connosco, os seus pais, um “-assunto urgente e sério”. Começou por dizer que se não falasse morreria. A tristeza, a raiva, a revolta tinha-se apoderado dela durante aqueles longos seis anos até que decidiu falar sobre os seus sentimentos e justificar o seu comportamento em contexto familiar.

A nossa menina relatou-nos situações que um pai e uma mãe nunca esperariam ouvir de uma filha. Imediatamente se abriu uma ferida. Durante um ano, entre os oito e os nove anos, a nossa menina foi vítima de abusos sexuais nas nossas barbas, na nossa casa. Para nosso espanto, um familiar directo que frequentava regularmente a nossa casa e era tratado como um filho abusara da nossa filha. O abusador tinha mais nove anos que ela e plena consciência dos seus actos.

A nossa filha sofreu um ano em silêncio porque, tal como esperávamos ouvir, foi ameaçada com a promessa de que se falasse aconteceriam coisas muito más aos pais e na escola “-ajustaria contas com ela.” E sofreu mais cinco anos ofuscada pela vergonha e a verdade escondida.

Hoje, a nossa menina está na fase adulta e não consegue manter um relacionamento saudável e normal com quem ama e demonstra amor por ela. Tudo o que poderia ir além de um beijo e um abraço é, para ela, violento pois a cara do agressor fica imediatamente estampada no rosto daquele que ama. Diz que as memórias doem, partilhando connosco a sua angústia. Recuperou a alegria de viver mais ainda não conseguiu reparar a dor da alma.

A nossa filha, a nossa menina a nossa mulher, em silêncio foi vítima de abusos sexuais e é preciso dizê-lo. É preciso dizê-lo para que outros pais quando tentarem decifrar mudanças comportamentais ou distúrbios psicológicos nunca descartarem qualquer hipótese para justificarem algum tipo de perturbação, raiva, tristeza ou revolta. É preciso dizê-lo para que nem a possibilidade de abusos sexuais seja excluída porque nas nossas barbas e debaixo do nosso tecto podem acontecer coisas que nunca imaginaríamos que poderiam acontecem com os nossos filhos.

 

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