ActualCláudia PachecoOpinião
8 Março, 2018

As redes sociais e o outro lado do mundo

Nutro um fascínio indisfarçável pelas suas peças jornalísticas que contam as histórias por detrás de cada rosto, desses que vejo diariamente “postados” e cujos nomes eles conhecem bem.

Quem me conhece bem sabe que a comunicação online é uma das áreas que mais gosto de lecionar, defendo-a em muitas frentes, embora reconheça que ainda estamos todos em processo de aprendizagens permanentes sobre a forma de a usar eficazmente. A “rede”, como lhe chamava na faculdade o meu professor de comunicação, aproxima-nos de quem está longe, a ponto de percebermos e sentirmos o mundo como uma aldeia global.

Ser-me-ia fácil fazer uma lista das inúmeras vantagens dos social media, mas o assunto que quero partilhar convosco tem a ver com o meu feed do facebook, já que, talvez como o vosso, ultimamente enche-se de imagens de crianças sírias em grande sofrimento e fotografias chocantes dessa guerra sangrenta que mata gentes do outro lado do mundo. Tenho amigos indignados fazendo uso do seu mural para manifestarem tristeza por tanto sofrimento gratuito.

Questiono-me se a guerra começou ontem e se nestes últimos anos não foi sempre assim… À hora do jantar, de uns tempos a esta parte, a televisão mostra-nos notícias do terror perpetuado por essas bandas do outro lado do mundo. Recordo-me, então, de um colega meu do ISCTE, que no ano de 2001 (quando ainda as redes sociais não faziam parte do nosso quotidiano) dizer, de uma forma iluminada, que a guerra no Médio Oriente ficaria na história da humanidade como uma das mais mortíferas de sempre. As suas preocupações com esta temática, bem como a sua frase, ecoaram dentro de mim durante muito tempo, a par de uma enorme admiração pelo discernimento demonstrado por ele já naquela altura.

No exercício da minha profissão tenho tido o privilégio de conhecer alguns jornalistas de guerra que trabalham há anos por essas bandas do outro lado do mundo e que por estes dias também preenchem o meu feed do facebook, indignados com esta crescente onda de despertar de consciências nas redes sociais, como se estes acontecimentos fossem coisa de agora e não desde o tempo em que eles lá estão no terreno. Eles não são “caras larocas”, nem nomes badalados, mas são excelentes profissionais e sobretudo grandes seres humanos. Nutro um fascínio indisfarçável pelas suas peças jornalísticas que contam as histórias por detrás de cada rosto, desses que vejo diariamente “postados” e cujos nomes eles conhecem bem, e percebo de alguma forma que quem vive estas histórias por dentro tenha sempre outra visão dos acontecimentos, uma visão desprovida de interesses mediáticos e longe da agenda informativa que vai marcando a atualidade e formatando a nossa forma de pensar.

Contudo, não deixo de sublinhar que é importante manifestarmo-nos publicamente quando a morte é a morte, porque ela é toda igual, aqui, ou nessas bandas do outro lado do mundo. E concluo que, apesar das muitas críticas que se possam fazer ao uso individual das redes sociais, elas verdadeiramente possibilitam que, pelo menos, na medida do que cada um é capaz, todos possamos perceber que o mundo é um só, é este, e é o nosso.

About this author

0 comments

There are no comments for this post yet.

Be the first to comment. Click here.

Deixar uma resposta